segunda-feira, maio 30, 2005

Um xerife na zona sul do Rio de Janeiro (em busca do Brasil inteiro)

Fui à praia ontem, domingão de sol sem nuvens, entre a Farme de Amoedo e a Vinicius de Moraes, como de praxe, bem em frente à Barraca do Mineiro, capitaneada pelo glorioso Miguel, morador do Vidigal, vítima do tráfico incandescente, trabalhador autônomo, casado, pai de três filhos, e que vende cerveja, côco, aluga cadeiras, barracas, suando atrás do dindim enquanto nós descansamos de uma semana intensa de trabalho.

Eis o que assisti: uma corja de fiscais da Prefeitura chegou com pranchetinha nas mãos e câmeras digitais, fotografando tudo à volta.

Explicação brevíssima: na semana passada, César Maia, capitão da corja, nomeou um xerife - o nome é esse mesmo - para uma "faxina" - o termo usado também foi esse - na área nobre da cidade - mais uma vez, o "nobre" foi vomitado pelo alcaide.

Vai daí que os fiscais exigiram que o Miguel pintasse com tinta preta - baldinhos e pincéis fornecidos pelos fiscais - as propagandas expostas nas barracas que aluga. Exigiram que recolhesse cadeira por cadeira, eis que a atividade é ilegal segundo normas de posturas municipais. E deram de xeretar os isopores, exigir notas fiscais do gelo, das mercadorias etc etc etc

Parênteses: o porco do César Maia, que mandou seu exército de fiscais proibirem a propaganda ingênua do Miguel, entubou rios de dinheiro pra emporcalhar a cidade, inclusive a orla litorânea, com propagando ilegal da VIVO, companhia de telefonia celular, uma das que mamou na teta do Estado brasileiro na onda das privatizações.

Vejam que nojo. Cidadãos morrem agonizando nas filas dos hospitais municipais, geralmente nas zonas consideradas menos nobres pelo porco do prefeito (com "p" minúsculo mesmo). Motoristas são achacados diariamente pelos radares eletrônicos que pululam na cidade inteira. Professores são mal pagos, falta merenda, o alunado não conta com material adequado, e lembrar disso tudo debaixo do sol escaldante deu-me um nojo profundo.

Fiscais, que cumprem ordens, logo são os menos culpados, invadem a praia num domingo de sol para perseguir um trabalhador que está ali ganhando a vida, sustentando os filhos, e dando conforto a quem não tem, como o alcaide, um piscinão particular no mais caro edifício de São Conrado, um dos metros quadrados mais caros da cidade, e sob o argumento de fazer cumprir as posturas municipais.

Quando?, meu Deus, eu me perguntava, agiremos com fúria ativa para fazer essa gentalha ter o mínimo de compostura? Essa gentalha inclui o alcaide, seu filho, que mais parece um Führer-mirim, Severino, José Dirceu, Garotinho, Rosinha Matheus, Roberto Jefferson (a quem o Lula vergonhosamente chamou de parceiro), a toda a classe política brasileira que, salvo um ou outro, não tem postura, não tem vergonha na cara, não tem pudor, não tem caráter.

Não estou aqui a bater o pezinho com raiva passageira. Estou apenas num quadro de indignação absurda tentando entender o por quê, embora as explicações sejam inúmeras mas incapazes de me fazer um conformado, dessa passividade gigantesca.

Será que chegamos no fundo do poço da humilhação e massacraram inclusive nossa capacidade de reação?

E o PT? O anti-PT está no Planalto, e quando vemos, por exemplo, um Chico Alencar não dobrar-se diante da força da máquina se recusando a retirar sua assinatura do pedido de CPI e ser ameaçado de expulsão em dezembro quando a Executiva do PT reunir-se, como fizeram com a Heloísa Helena, temos certeza disso: é o anti-PT que está lá em Brasília.

Daí me lembro do Velho Caudilho quando dizia que o ex-operário iria mesmo se deslumbrar com os salões, com os lustres, com as mesas ovais e negar, dia após dia, sua origem e a origem dos votos que o levaram, depois de várias eleições, ao Poder.

Poder do qual não quer se desgarrar de jeito nenhum, o anti-PT.

Tudo indica que o PFL, de figuras asquerosas como ACM, vai de Cesar Maia para a eleição presidencial.

Agirá, seguramente, o basbaque, como um xerifão nacional. E seguramente quererá fazer uma faxina no País de cima a baixo. Como se não fosse urgente justamente uma faxina nas Prefeituras, nas Câmaras Municipais, nos Governos Estaduais, nas Assembléias Legislativas, na Câmara e no Senado, cada vez semelhantes com uma privada, como iria demonstrar uma escola-de-samba carioca no carnaval passado, com Tio Sam cagando sentado numa de suas cúpulas.

Foram os homens do PT, ofendidos, coitados, que conseguiram a proibição.

Mas mantiveram a caganeira, que parece irreversível.
Eduardo Goldenberg

sexta-feira, maio 27, 2005

Eras


Tenho uma relação estranhíssima com o futebol: realmente não é dos assuntos que mais me tire o sono (minha conta bancária basta para isso), nunca tive capacidade para praticá-lo (não gosto de correr, logo só gosto de praticar três bravos esportes: sueca, porrinha e halterocopismo), não acerto um chute em linha reta (na verdade costumo errar a bola) e considero 90% dos jogos a que assisti de uma chatice atroz (detalhe: nunca fui ao Maracanã assistir a um jogo, não sei nem como se faz). Contudo, em determinados momentos, a beleza plástica do espetáculo, aliada a uma necessidade atávica que todos temos de nos entregarmos a alguma forma de catarse em algum momento da vida, me arrebata e um tricolor desde os sete anos de idade (era botafoguense, mas não resisti ás exibições da Máquina) se manifesta, inconteste, e lá vamos nós aos brados proferir impropérios contra a pobre senhora que mal nenhum perpetrou além de dar a luz àquele rapaz que está portando o apito e que acabou de anular um gol legítimo. Senhora esta que, aliás, raramente vai ao estádio, certa dos epítetos de que será alvo.
Vibro, sim, durante jogos decisivos (apesar de ser incapaz de acompanhar qualquer campeonato do começo ao fim, com exceção, é claro, da Copa do Mundo – ocasião em que até o Stephen Hawkings se manifesta acerca do assunto e afirma peremptoriamente que aquele pênalti até ele fazia). Já chorei de alegria algumas vezes (mais com a Seleção Brasileira do que com o meu querido Fluminense, devo admitir). Mas costumo, na maior parte de meu tempo, manter uma distância crítica em relação ao assunto. Logo, creio poder dar minhas opiniões de leigo por aqui.
A grande diferença entre Maradona e Pelé, a meu ver, consiste na natureza dos momentos históricos em que surgiram. Pelé surge para o futebol num momento em que o jogador começava a sair de um amadorismo quase absoluto para um profissionalismo ainda não completamente estabelecido, quase que em potencial. Malandro que era, foi um dos pilares do processo de profissionalização completa, graças a seu infinito talento e a um senso de responsabilidade e oportunismo irreprocháveis. A integração absoluta, o entrosamento perfeito entre um ser humano e seu instrumento de trabalho (instrumento este que nunca foi tão bem tratado em toda a sua existência e nunca mais voltaria a sê-lo) se aliaram a um faro para resultados concretos poucas vezes visto. Tinha que funcionar.
A partir de Pelé – e com o advento, ao longo de sua carreira, da televisão – o jogador de futebol não seria mais apenas um atleta: torna-se, além disso, uma pessoa jurídica, uma griffe (como se costuma dizer hoje, nas rodas de rapazes que cedem suas respectivas caudas), uma estrela que atinge todas as idades e sexos. O futebol deixa de ser "coisa de macho" (com todas a carga de exclusão que a expressão possa carregar) para ser um produto consumido por toda a família, mesmo que por motivos diversos: qual a moçoila adolescente com o cérebro pouco habitado – esse híbrido entre adulto infantilizado e criança precocemente sexualizada que grassa pelas noites da Barra – que não sonha convencer o Ronaldinho a deixar a camisinha pra lá e aparecer uns meses depois munida de exame de DNA nas mãos? Isto não era imaginável antes do advento de Pelé, que demonstrou que se pode, sim, ser atleta com todas as letras e simultaneamente assumir ares de Alain Delon – ainda que esses ares sejam apenas virtuais.
Pelé, pois, inaugura e é um dos principais responsáveis pela total profissionalização do jogador de futebol e por sua conversão em algo mais do que isto.
Maradona já encontra o cenário armado. Desde que começa a despontar como extraordinário jogador que foi, uma mídia já sólida se volta para ele. A indústria de glamurização do jogador já existe, e se vale de Dom Diego muito bem. Todo o estilo de Maradona tem a ver com esse apelo midiático: um futebol quase acrobático, que muitas vezes não acreditamos estar se desenrolando frente a nossos olhos, um verdadeiro espetáculo. Espetáculo para o qual talvez nem mesmo Diego Maradona estivesse preparado, vide a desestabilização emocional que acabou por lhe causar, desestabilização esta que o levou a certos hábitos que conhecemos tão bem.
A tentativa de aproximar o futebol de Maradona ao de Pelé é devida justamente a esta diferença de eras: um (Pelé) criou um método, apontou o caminho, criou toda uma estrutura; outro (Maradona) foi tomado por esta, que, com seus recursos, transformou a marca "Maradona" em algo mais do que ele efetivamente era. Pois, apesar de seu futebol excepcional, de sua genialidade entre as quatro linhas de um campo de futebol, Dieguito era um jogador de futebol, apenas. Pelé é algo mais, ainda que eu não saiba dizer o quê, exatamente.

Fernando Toledo

quarta-feira, maio 25, 2005

Entre Bozo e Arrelia

Olha, isso não se faz. Isto aqui é coisa séria, não faltam trapalhadas do governo e assuntos mundanos em geral pra gente deitar e rolar. Mas vou-me obrigar a parar e falar de futebol, o mais sério dos assuntos não sérios, por força de uma provocação.

Fez o meu irmão Eduardo, no texto de segunda-feira aí abaixo, como aqueles moleques que, depois de um quiproquó qualquer durante a pelada da rua, vias de fato evitadas pela turma do deixa-disso, põem-se encastelados atrás do muro de casa, bola embaixo do braço e bem protegidinhos pela saia da mamãe, a bradar chibanças e valentias. Saibam, essa bazófia toda vale-se da fraternidade siamesa e da distância, porque fosse com outro...

Pequena pausa para a crônica dos fatos, para que entendais a dimensão do assunto para mim. Estávamos viramundando certa vez eu e o bom Marcão – que aparece por aqui não pela primeira e nem pela última vez – por essas brenhas de Brasil, quando numa boa conversa de praia, daquelas sem assunto e sem preocupação, conhecemos um sujeito das Alterosas, mineiro daqueles de fala miúda, bom de cachaça e prosa, atleticano até às últimas. Uma simpatia, o cidadão. Fomos embalando naquela camaradagem de butiquim, descompromissada, vários dias encontrando o sujeito e intensificando as amabilidades de parte a parte: "quando for em São Paulo, me procura, hein?"; "vou mandar uma cachaça que você nunca sonhou..."; "temos lá um médico que te cura dessa coluna em três dias...". Por aí. Até que uma hora o papo resvalou para o futebol... Pra quê, meu Deus? O mineirinho, já mais solto, com umas a mais na cachola, manda de bica: "O Reinaldo do Atlético jogou muito mais que o Pelé! Esse aí era um produto da mídia...". Confesso, caros, que a estultice era tamanha que mereceria até uma descompostura mais racional, mas qual o quê? Virei a mesa, incontinenti, ventas espumando em fúria, vociferando impropérios, os citados perdigotos arremessados como balas de metralhadora, contido pelo Marcão para não esganar com as próprias o sujeito que fugia apavorado ante a ferocidade instantânea da reação. Fim da pausa.

Porque, meus amigos, não consigo imaginar ignomínia maior. É um assunto, que na verdade, não gosto e não admito debater. Não porque futebol não se discuta: Pelé é que não se discute! É por isso que acabo de desistir de escrever um texto sereno, argumentativo, como convém aos temas de futebol. Até porque, o nosso bom Jota já se encarregou, lá nos comentários de segunda, dos dados mais, digamos, objetivos e nesses termos a comparação chega às raias do desarrazoado. Com uma observação apenas: o filme sobre o argentino ficaria melhor??? CADÊ??? Sobre o Pelé, com o pouquíssimo material disponível, há dois famosos, ambos de encher os olhos: Isto é Pelé, de 1974, e o mais recente e encantador Pelé eterno. Com esse tanto de imagem disponível sobre o baixinho deles, nunca vi nada que se aproximasse em espetáculo, beleza, graciosidade, vigor, plasticidade. Mas há por aqui quem se orgulhe de não freqüentar salas de cinema e outros que lêem durante os jogos de futebol. Será, meu Deus, que eu fiz Conexão para o ramal errado?

Fico lendo, relendo a tela do computador, as palavras do meu bom Eduardo embaralhando-se sob as minhas vistas, não sai da minha cabeça a imagem de um ressuscitado Nelson Rodrigues lendo isso e vomitando até uma segunda morte, ignominiosa e inglória, citado de maneira vil, apunhalado por um tão querido e querente.

Os argumentos do meu incauto irmão Edu suicidam-se uns, canibalizam-se outros. Marrentos? É preciso muito desconhecimento da história do futebol, é preciso pautar-se demais pela revista Caras e o seu vídeo-brinde com a "História das Copas" para ignorar que Pelé dentro de campo não é esse personagem que desfila pelo mundo empacotado no seu smoking e derramando seu inglês claudicante, a enfeitar festinhas e solenidades; encampando causas nobres e duvidosas, arrastando multidões; anunciando vitaminas e aparelhos de ginástica, ajudando, é claro, a encher as burras do contribuinte Edson Arantes do Nascimento. O Pelé de dentro das quatro linhas era um animal indomável, trinta vezes mais marrento do que qualquer outro, porque obstinado pelo gol. Sabia pisar, chutar o adversário, dar cotovelada e cuspir na cara na mesma proporção que driblar e marcar gols, porque tudo isso fazia parte do jogo em que não admitia perder. Tanto que teve exaltada por seus mais tenazes marcadores, como a maior de suas qualidades, muito acima de qualquer característica técnica, o seu "olhar de fera acuada" (não consigo lembrar o autor da definição, ajudem-me pelo amor de Deus).

É claro que Maradona foi um jogador brilhante, muitíssimo acima da média, gênio mesmo, não só pela habilidade como pela postura. Em campo, claro. Mas como Maradona, sim, se discute, volto a afirmar que ele foi e é, acima de qualquer coisa, o herói de um povo humilhado, sofrido, subjugado por uma tirania vil e derrotado numa guerra insana. Essa é a diferença, queiram ou não (ajude-me, Nelson!), dos argentinos para nós. Eles sabem construir seus mitos, seus heróis. Sabem como encher de sangue e lágrimas os olhos dos que encaram a bandeira azul-e-branca, mão no peito e frêmito latejante na garganta. A sua raça, o seu orgulho, a sua fibra nós não temos! É por isso que enquanto eles endeusam seu ídolo construindo-lhe altares e igrejas, insuflando nos mais jovens as memórias (exageradas, claro, como todo mito, todo herói nacional) de seus feitos, tratando de usar o tão pouco que lhes resta para não deixar morrer a idéia de uma nação argentina soberana, nós, vira-latas complexados, detratores maiores do Brasil, desdenhados de nossas melhores virtudes, deixamos escoar entre os dedos a figura de um gênio da raça, de um exemplar único de perfeição humana que, por acaso, veio nascer por essas plagas.

Pelé é indiscutível, mas por óbvio não é incomparável. Compara-se com Michael Jordan, com Bjön Borg, Gari Kasparov, Michael Schumacher, com Mark Spitz e suas sete medalhas de ouro, se for pra ficar no esporte. Com Sheakespeare, DaVinci, Bach, Pixinguinha, Fred Astaire, Einstein, Thomas Edison ou Pitanguy. Com qualquer um que tenha levado o engenho humano, nas suas mais variadas modalidades, aos limiares últimos da perfeição.

Não se trata de bairrismo, de patriotada. Pode-se discutir se Maradona foi melhor que Zico ou Rivelino, ou se esses jogaram mais que o Platini ou o Puskas e eu posso opinar, ainda que sem muita convicção. Pelé não! Zizinho ou Leônidas? Vi tantas vezes meu avô se engalfinhando com meus tios... Jamais o Negrão! Porque sempre tiveram, senhores, vergonha demais em suas caras brasileiras, mulatas, sofridas, funcionárias públicas honestas até a morte. E morte de cruz.

Os que embalam nessa lenga-lenga desinformada são os mesmos que, pautados pela Rede Globo, votaram na Maria Fernanda Cândido como a mulher mais bela do milênio, enquanto ela estrelava a novela das oito. São os que preferem o deformado Bozo ao gigante Arrelia, de quem eu pretendia, como homenagem a um Brasil que morre, falar no texto de hoje.

Fernando Szegeri

segunda-feira, maio 23, 2005

Discutindo futebol

O Conexão Irajá está rigorosamente dentro dos trilhos que imaginamos os quatro: eu, Fernando Szegeri, Fernando Toledo e Mariana Blanc, nossa querida editora que está a nos dever uma entrada nos vagões. Pau quebrando nos comentários, presenças constantes de impolutas figuras como o Jota, o VV, o Flavinho, Augusto, Marcão, e quero falar hoje sobre futebol, tendo como mote uma conversa que nasceu e morreu, em segundos, em São Paulo, mesa de quatro, eu, Szegeri, Augusto e Capitão.

Estávamos no Bar do Giba. Um poster imenso do Pelé na parede gerou um breve comentário do Capitão: "Sabe que eu acho que o Maradona jogou mais que o Pelé?". Amigos, o Szegeri só faltou destruir o jovem rosto do Capitão e quebrar o bar inteiro. Instalou-se um bate-boca de dois minutos, não mais que isso, e encerrou-se a conversa sob o argumento de que "futebol não se discute".

Mas vamos discutir um bocadinho só, como diria Dorival Caymmi.

Eu não quis pôr lenha na fogueira em São Paulo por que o Szegeri estava realmente transtornado (quem o conhece sabe o que é aquele peludo irado; os braços branem, os olhos fervem, turbilhões de perdigotos são arremessados em direção ao desafeto) e eu não estava a fim daquele papo. Afinal, nossa principal intenção, naquele instante, era um ato de desagravo ao Aldir, mais detalhes no Sodói, no texto "A César o que é de César".
Mas eu concordei com o Capitão, e é essa a bola que eu levanto. Não vi o Pelé jogar. Como não vi o Nilton Santos, que fez 80 anos semana passada. Como não vi o Mané. E decidi, até mesmo pra me facilitar a vida nessa seara de escolhas das preferências, meter o bedelho naquilo que meus olhos viram, ao vivo.

E aí o Maradona é mesmo meu preferido, ali, pau a pau com o Romário. Ambos marginais na melhor acepção da palavra. Marrentos, que é um ingrediente fundamental para o gôzo do torcedor ser mais intenso depois da vitória. Nosso bom Szegeri ainda tentou filosofar, alegando que o Maradona teve mais importância para o povo argentino, o que acabou por transformá-lo num ídolo sem precedentes naquelas bandas de tango, inclusive num santo (é verdade!, é verdade!) com direito à igreja e tudo, a Iglesia Maradoniana.

Daí lembrei-me do Pelé, a quem o Romário acusou, recentemente, de só abrir a boca pra falar merda. Pelé deu entrevista dizendo que o maior jogador de futebol dos últimos 10 anos é o Zidane. E os brasileiros, como diria o tricolor Nelson Rodrigues, sapatearam como espanholas sobre a pátria, revoltadíssimos, perguntando, e o Ronaldinho?, e o Ronaldinho Gaúcho?, e o Romário?, e o Zico?

Vejam que o assunto futebol é quase que para não ser discutido mesmo. Poderia escrever aqui centenas, milhares de linhas e o assunto não se esgotaria.

Pode-se dizer que toda lista de melhores é uma janela pra uma discussão que ferverá. E é verdade.

Mas como o espaço de hoje é meu, vai meu pitaco final, aguardando a pancadaria.

O Romário, quando ganhou sozinho do Uruguai, de 2 a 1, no Maracanã, levando o Brasil à Copa do Mundo, tendo sido convocado de última hora por pressão da torcida, tornou-se o melhor do mundo. Todo o resto brilhante de sua carreira é apenas o resto diante daquela vitória heróica, que ele construiu sozinho.

O Maradona, quando fez uma fila de ingleses, do meio-campo à entrada da área, fechando o quadro com a bola na rede, quando meteu a mão na bola vingando a pátria portenha destroçada pela Guerra das Malvinas, tornou-se o melhor do mundo, e todo o resto de sua brilhante carreira (sem trocadilho, por favor) foi apenas o resto diante daqueles lances memoráveis.

O Zidane destruiu o Brasil naquela final na França. A passionalidade me impede de concordar com o Pelé.

Senhores, à porrada.

PS: ergo o copo, de dentro do balcão, ao Gilberto, freqüentador assíduo do Estephanio´s, professor de História, que mandou reservar mesas e mesas para quarta-feira, quando faria aniversário e seria festejado por uma multidão de amigos, não fosse o estúpido acidente que o levou, pra sempre, no sábado à noite.
Eduardo Goldenberg

sexta-feira, maio 20, 2005

Minha mãe não deixa eu maquiar press-release antes do almoço então ela é feia

O que define um jornalista como grande, como memorável? Vários fatores poderiam ser relacionados aqui, mas alguns são cruciais: capacidade de enxergar, em determinado fato, aspectos deste que passam despercebidos ao leitor médio e trazer estes aspectos à tona, permitindo a este mesmo leitor médio efetuar a análise e julgamento do fato; manter um compromisso de honestidade e clareza com o leitor, mesmo quando se trata de emitir opiniões suas, pessoais, sobre o fato, o que concerne ao jornalista, uma inquebrantável aura de credibilidade; ter a capacidade de exprimir-se pela linguagem escrita de maneira compreensível, sem abrir mão de um estilo de escrita própria, que, mesmo que não se pretenda literário no sentido de artístico, atraia a atenção do leitor e o cative, como que exercendo uma espécie de poesia da informação. No entanto tais premissas nos últimos tempos não têm sido devidamente levadas em conta.
Desde que se estabeleceu que, para que possa escrever para periódicos, o jornalista tenha que ter cursado a faculdade de Jornalismo, a situação se tornou péssima. Membros de classes humildes foram afastados da profissão, e em seu lugar tomaram posse burguesinhos criados a leite-de-pato, que não possuem a mais importante condição para que se tornem profissionais de um ramo que perpassa o humano em todas as suas faces, que obrigatoriamente demanda o que, parafraseando o grande e subestimado João Antônio, é um corpo-a-corpo com a vida e a palavra – corpo-a-corpo este que, ausente, não permite que se exerça nenhuma atividade em que o humano constitui a própria essência. Como mergulhar nos meandros de toda uma sociedade, formada evidentemente por indivíduos (também, é claro, absolutamente díspares entre si), quando se é criado em redomas, em cristaleiras de cristal da Boêmia? Como compreender – não aprovar, disse compreender – a atitude de um peão desesperado que ateia fogo à mulher que o traiu com o entregador de gás quando se tem em mente o peão apenas como um número numa estatística, número que por acaso vivenciou uma tragédia? Cada tragédia é um universo em si (coisa que nossos amiguinhos gregos, lá atrás, sabiam muito bem), e não pode ser analisada sob uma lente completamente distanciada, não pode ser despida dos elementos que a conduziram e permitiram sua eclosão.
E vivência, sinto muito dizer, é algo que a enorme maioria de nossos jornalistas mais jovens não possui, em absoluto: egressos de uma geração de classe média/alta que cresceu à sombra das televisões em flor, cujo lazer consistia em internar-se como um catatônico na multicolorida solidão egoísta dos videgames ou na sociabilidade anódina das salas de bate-papo da internet, como se pode esperar que cheguem sequer a ter um vislumbre acerca do povo sobre o qual e para quem estão escrevendo? Só pode resultar em pólos bem definidos: meros (utilizando um termo de Fausto Wolff) apanhadores de press-releases – os quais maquiam entre um danoninho e um gatorade, ou entre visitas a suas comunidades de orkut – , e os herméticos pseudo-detentores de uma sabedoria fuleira que não conseguem transmitir – aninhados numa empolação vulgar que não leva a nada, como no célebre caderno Mais! da Folha de São Paulo. Falta-lhes o dom da palavra, não carregam as dores do mundo em suas carnes, e vagam, inócuos, em seus mundinhos virtuais. Desta forma, diminuem, mesmo sem sabê-lo – pois que se julgam em patamares superiores – sua profissão, aos olhos de seu público.
A iniciativa do Jornal do Brasil, de trazer de novo para a grande imprensa jornalistas de um período em que os ingredientes principais de um bom texto ainda eram seu próprio sangue e suor, que escreviam movidos a doses cavalais de lágrimas e risos extremamente humanos, e não a academias e sucos de açaí: nomes como Ziraldo, Luís Pimentel, Aldir Blanc e, principalmente esse ícone dos leitores que se dignam a pensar e que se chama Fausto Wolff (o jornalista mais honesto, talentoso e sério deste País e, por isso mesmo, o mais renegado pelos grandes meios de comunicação), é altamente louvável. É uma (se me permitem o chavão) luz no fim do túnel. O Caderno B ainda não atingiu o formato ideal, mas não se pode negar que uma balançada no meio que se afigura está bem clara. Esperemos que essa pedra, atirada na água desse lago que chafurdava em si mesmo, se multiplique em milhares de círculos e atinja outras publicações. Em respeito a todos nós que ainda sabemos ler nesse país.
P.S.: Não posso deixar aqui de citar um dos maiores humoristas deste País, Otacílio Barros D’Assunção, o Ota, que também integra o time e cuja tira, "Dom Ináfio", é uma das mais bem-humoradas e cortantes sátiras ao Brasil de hoje.

Fernando Toledo

quarta-feira, maio 18, 2005

Um médico, por favor!

Fiz na semana passada uma coisa a que não me dava o trabalho há muitos anos: escrevi uma carta pro jornal. Parei de fazê-lo depois que fui sondado pelo Guiness para o recorde mundial de cartas não publicadas e que o ombudsman da Folha me disse por telefone que a minha ficha tinha esgotado a memória disponível do computador. Pra quê, afinal? Perde-se tempo, não te desopila o fígado e ainda arrisca-se a ir parar naquele impagável recanto das Cartas Idiotas.

Mas desta vez achei que o motivo era justo e o jornal andava a merecer um voto de confiança. Escrevi, assim, para a seção de cartas do novo Jornal do Brasil uma pequena mensagem em que parabenizava o matutino pela aquisição do "passe" do implacável Grande Lobo do Jornalismo brasileiro. As aquisições do JB foram, na verdade, muitas a merecer encômios: Aldir, Luis Pimentel, Ziraldo, nosso bom Toledo entre outros. Mas a do Fausto Wolff é emblemática. Ninguém como ele – pelo menos da geração que ainda está por aí colocando o dedo na ferida – sofreu na pele tão duramente as conseqüências de se fazer um jornalismo que não precisa de muitos adjetivos para diferenciar-se do imenso valhacouto de pasmaceiras, gatunagens e patifarias de toda ordem em que se transformou a grande imprensa capitalista nacional. Simplesmente, um jornalismo HONESTO.

Dizia eu na mensagem curta que Fausto era daqueles profissionais tão hoje raros em cujas mãos a gente sente confiança de se abandonar... Sim, porque os de minha geração crescemos morrendo de medo dos advogados, sempre prevenidos de que qualquer conselho deles vindo esconderia o intuito subreptício de nos embromar, de nos assaltar; dos médicos, que vira e mexe sabemos esquecendo objetos nas barrigas dos operados e matando gente dos remédios; dos engenheiros que constroem prédios com areia da praia; e tantos etcéteras. Dos jornalistas, então, de meu avô aos professores, o coro unânime: SEMPRE desconfie do que você lê nos jornais...

Se aos causídicos falta a estrutura de uma formação decente, proliferadas as pseudo-faculdades como coelhos, aos esculápios as condições dignas de trabalho, equipamentos e salários condignos. Mas aos jornalistas, senhores, falta na média dos casos apenas e tão somente a velha e boa vergonha-na-cara. Porque se é preciso conhecer Shakespeare e Joyce para cravar o golaço o que o velho Lobo meteu ontem, de três dedos, na sua coluna diária do Caderno B, não são precisas filosofias nem literaturas muitas para simplesmente se falar a verdade.

É fato que envelheço, por graça, mas é difícil viver assim. Desconfiando de tudo, encurralados, dormindo com um olho sempre aberto. Pois os médicos atendem pelos convênios e quando você acha um que gosta e vai voltar, certo de que ele conhece tão bem a sua dor no joelho, pronto: descredenciado! Pois quando você acha que aquele jornalista é sério, espere bem por aquele tema que contraria os interesses dos grandes donos dos grandes veículos (que são uma meia dúzia no Brasil).

Deixe para lá os “jovens”, meu bom Eduardo. Qual é afinal o seu poder? O poder de arrebentar a língua com seus blogues imbecis e seu narcisismo psicopático? O poder de “descobrir” a música brasileira, a cultura popular e suas “raízes”, para expô-las no grande zoológico humano que por tudo espanta e comove? O que querem os que pedem a cabeça dos “dinossauros”?

Certamente que não se fale desse Brasil sujo e desagradável que se tenta evitar ao máximo – a não ser para o seus expressionismos batismais a purgar as culpas herdadas pelo esfacelamento completo de qualquer coisa que já se tenha sustentado sobre este chão – nos apartamentos refrigerados, ou nas sessões de cinema inteligente exibido nos cineclubes custeados (os filmes e as salas) pelos larápios do sistema financeiro “nacional”. E tome blogues.

Que não se fale que a nação da cordialidade e das esperanças morre à míngua, provavelmente sem salvação, em cada cidade e cada vilarejo desse imenso território, espalhadas indiscriminadamente como bexigas fétidas e purulentas as mazelas ontem restritas aos grandes centros urbanos. Que não se diga que a originalidade que nos poderia salvar sucumbe dia-a-dia aos padres-palhaços e aos pastores-gatunos, único setor da economia brasileira que parece levar a sério seu caráter capitalista, com franchises eficientes, concorrência dura e descarada, disputada nos centavos.

Não que eu ache necessariamente que tenha jeito, mas é bom saber que você não está louco sozinho. Por isso que é tão bom – não, não é bom, é NECESSÀRIO - poder abrir o Fausto todos os dias e dizer pra você mesmo: aqui eu não corro perigo. “Ele vai ser demitido de novo, mas não vai me enganar”. Aqui eu posso desarmar as trancas, desativar os alarmes, sossegar os cães. Por mais que me doam, as verdades não me serão negadas. Por mais que chore e esperneie de dor e raiva, estará ali a mão segura apontando o que eu não merecia, mas infelizmente preciso ver.

Esses nossos “jovens”, senhores, são os que não cumprirão o mandamento rodrigueano de envelhecer. Não sobreviverão ao câncer que geramos e que alimentam, instalado, irreversível. O diagnóstico de sua metástase é iminente e dolorido demais de se ouvir. E é por isso que eu PRECISO me abandonar com tanta confiança a quem o destino incumbiu de mo anunciar.

Fernando Szegeri

segunda-feira, maio 16, 2005

É o poder jovem esperneando...

Não consigo conter minha euforia desde que Fausto Wolff, depois de mais de 40 anos afastado da grande imprensa, retornou ao JB para escrever sua coluna diária. A cada manhã, lá estou eu debruçado sobre o Caderno B lendo o Fausto, um defensor imprescindível do povo, sempre ao lado do povo, que fere como faca abrindo as feridas que têm que ser expostas. E imaginei-me um eufórico dentre tantos, eu diria mesmo que entre todos. Um país que tem um homem com os brios do Fausto, homem com uma inteligência e uma sensibilidade raríssimas - e sempre a serviço do povo, não é demais repetir - tem mesmo de comemorar o dobrar de joelhos da grande imprensa que, depois de quatro décadas tentando calá-lo, novamente o coloca num grande jornal e lhe dá a oportunidade de, diariamente, escrever o que ninguém mais tem a coragem de dizer.

Com o Fausto, vieram outros tantos, todos para o Caderno B, reformulado e capitaneado pelo camarada Pimentel, o doce Pimenta.

E com o que me deparo dia desses? Com um chororô incompreensível. Taxados de velhos, esses monstros, dentre os quais quero destacar e citar apenas o Fausto, um de meus declarados ídolos, estavam recebendo vaias e queixumes apenas por isso: por serem velhos.

Vamos lá. Eis as manifestações com que me deparei:

"Vai satisfazer o saudosismo "ai-como-era-bom-o-pasquim" e logo depois tomba de anacronite aguda, como foi com a Bundas e o neo-Pasca21. (Que além de não dialogarem com o nosso tempo - não em conteúdo, mas em termos de linguagem -, foram massacrados pelos dragões da publicidade."

"O JB já vem agonizando há muito tempo. Com isso, ele está se transformando num Frankenstein. Fazem uma fórmula, aí não dá certo, tentam outra "agora vai!", aí também não dá certo e desmancham tudo pra começar do zero. Ficam nessa lenga-lenga de formatação do jornal, pegam um pedaço de olho aqui, uma perna ali, um braço acolá, e assim vai se levando enquanto o barco ainda flutua."

"Como assinante do Jb, acompanho na maior frustração as muitas tentativas de capturar a alma do Caderno B. Ou a aura que se perdeu..."

"Apoio incondicionalmente. O B ficou uma merda, e merda de dinossauro on the rocks. Sempre a mesma tchurma. E sempre foi assim , e assim será. Vade retro!"

Vejam vocês... foi impossível não lembrar das porradas que Nelson Rodrigues dava no que ele chamava de "poder jovem". Quem, Fernandos? - quero perguntar a vocês, mais sábios e mais frios que eu para uma análise do tema - quem pode hoje, na imprensa brasileira, querer ocupar o lugar do Fausto? Quem, como propõe um dos que vaiam a aquisição do JB, pode dialogar com o nosso tempo? (como me soa antiga essa proposta...)

O que querem esses moços, pobre moços?

A gente hoje espreme jornais do país inteiro, revistas do país inteiro, e estão no topo o Fausto, o Aldir, o Veríssimo, o Millôr, o Fritz, todos dinossauros, como outro babão sugeriu.

Pois se são dinoassauros, meus caros, quero mais é ser pré-histórico e crer que com suas patadas ferozes são esses dinossauros os únicos capazes de massacrar os que nos massacram dia-após-dia com o apoio dos "dragões da publicidade", outra sugestão colhida em meio às vaias que escutei.

Querem o quê, esses moços, pobres moços? Ana Cristina Reis? João Ximenes? Patricia Kogut? Não dá nem pra saída, francamente.

E vou, assim, sentindo-me um velho contemporâneo do Borba Gato. Tenho saudades do Leonel Brizola, do João Amazonas etc etc etc

Vocês, Fernandos, com a bola.
Eduardo Goldenberg


sexta-feira, maio 13, 2005

Quando erguem-se os traseiros


Realmente me sinto envergonhado de um país cujo povo se recusa, como diz nosso venerável imprevidente Luís Inácio da Silva, o ex-Lula (só costumo aplicar apelidos a pessoas pelas quais nutro simpatia), a levantar seu respectivo traseiro e partir em frente, rumo a mares nunca dantes navegados (pelo menos no mercado econômico brasileiro acessível à média destes), a fim de procurar “juros mais baixos”. É evidente que a fonte de todos os males é esta: o brasileiro, este ente acomodado, não tem iniciativa para tão simples empresa, e prefere permanecer vítima dos banqueiros malvados, herdeiros diletos da linhagem que abriga Lex Luthor, Capitão Feio, Dr. Silvana, Dr. Destino e Dr. Estigma (como tem médico cruel por aqui! Começo a entender certos aspectos dos hospitais públicos do Rio...).
Na verdade, a questão é bem outra: por que precisaria o brasileiro de recorrer a juros? Afinal, com o portentoso salário que nos é pago; com o bom uso que é feito de nossos impostos em termos de saúde, educação e segurança, para que necessitaríamos nos endividar e entregar, de graça, uma considerável parcela de nosso dinheirinho a instituições que cobram taxas pura e simplesmente para nos emprestar grana depositada por terceiros e por nós mesmos? No entanto, a questão mais interessante da questão não é esta, e partamos para a digressão antes que o artigo se torne extremamente chato e repetitivo.
Por que nos aconselha Luís Inácio a levantar a bunda da cadeira? Terá efetivamente seu Governo levantado corretamente a bunda alguma vez? Não me parece. E o exemplo maior que pode ser empregado de bunda mal-levantada é a ridícula realização da dita Secretaria Especial dos Direitos Humanos que, no afã de pendurar uma sutil melancia fluorescente em seu rotundo pescoço (muito bem) pago com nosso erário, se entregou à nobre tarefa de estabelecer novos códigos para o preconceito e cercear o linguajar do brasileiro. E criou a tal cartilha do “Politicamente Correto”.
A pronta substituição a ferro e fogo de termos já assimilados ao linguajar do dia-a-dia e a imposição de barreiras para a expressão do pensamento, alimentadas pelo nazismo às avessas (apenas em termos de outro lado da moeda, mas não da natureza desta) que é a pseudo-filosofia do politicamente correto, ali encontram o seu auge. Já se falou suficientemente sobre a cartilha para que eu perca meu tempo enumerando as bestialogias. Mas realmente não consigo me imaginar me virando para meu amigo Blecaut Jr., que é um negão de quase dois metros, e chamando-o de “afrão” (que deve ser a forma carinhosa de “afro-descendente”). É de um cretinismo cruel supor que por meio de um documento de mera orientação comportamental toda uma linguagem estabelecida cairá por terra.
“Não se trata de destroçar a linguagem, mas o preconceito nela contida”, dirão os bonzinhos de Brasília – ah, claro, obviamente a partir da publicação deste nefando livrinho todos os preconceitos hão de ruir: os skinheads (ou seriam “indivíduos voluntariamente desprovidos de material capilar apreciadores de teorias teutônicas de pureza racial”?) abraçarão seus irmãos oriundos de regiões do Nordeste e seus priminhos afro-descendentes; hordas de fãs do Jece Valadão invadirão saunas para confraternizar com gays, entendidos, homoafetivos ou seja lá qual for o nome recomendado para os veados agora – e os pós-de-arroz (cosméticos torcedores, segundo a próxima cartilha) sairão para comemorar com os urubus (catartídeos futebolísticos – idem) após os Fla-Flus. Toda uma nova era de paz e harmonia estabelecer-se-á, graças à brilhante levantada de traseiro desta secretaria, que ninguém sabia existir até então, e que, graças a um princípio de hipocrisia que quer anular este rótulo por se pretender condescendentemente retroativa, subitamente ganha até mesmo as páginas desta notória Conexão Irajá.
O que é necessário é que se compreenda que um vocábulo, para carregar ódio, necessita que este último lhe seja agregado. Ou seja: a maneira de proferi-lo (ou escrevê-lo, ou transmiti-lo) é a mensagem, e não o meio utilizado. Um conhecido criador inglês deu o nome de Son of a Bitch a um de seus melhores cavalos. Não consta que o odiasse ou que a progenitora do indefeso animal fosse uma, como se é orientado atualmente a dizer, “profissional do sexo”.
Partindo-se da lógica norte-americana, onde, em certas regiões, Mark Twain foi banido dos currículos escolares porque seus livros eram escritos na linguagem racista (e, é claro, realista – afinal a intenção era esta) do Sul do país, qual será o próximo passo? Criar-se uma lista de autores proibidos, um Index Bennedictus (Da Silvus) – nome em homenagem a conhecida ministra e ao libertário Papa que o mundo hoje possui)? Banir Ernest Hemingway por suas descrições de sanguinárias touradas, em O Sol também se levanta? Melville por louvar a pesca à baleia em Moby Dick e demonstrar preconceitos em relação a antropófagos polinésios e seus tradicionais hábitos alimentares em Typee? Condenar James Barrie porque o vilão de Peter Pan não se chama Capitão Prótese? E os Irmãos Grimm por não terem tornado imortal a história de Eurodescendente de Neve e os sete portadores de necessidades verticais de baixa estatura? Com certeza Horace McCoy, autor de Mas não se mata cavalo?, seria queimado em praça pública, por incitar a crueldade contra os companheiros eqüinos dos criadores da tal cartilha.
Foi-se o tempo em que certo membro do Partido dos Trabalhadores se elegia afirmando, com orgulho, ser mulher, negra e favelada, com todas as letrinhas que aí estão, aos brados em praças públicas. Hoje, no máximo, diria, com certo grau de vergonha, no tom comedido que sua atual posição política exige, pertencer a um grupo de seres humanos do sexo feminino, afro-descendentes e residentes de moradias de baixa renda. Termos que, ao contrário do efeito esperado, não elevam, mas atiram os que os proferem numa velada sensação de vergonha.
Mesmo que seja somente por se render a um dialeto tão antinatural e ridiculamente elaborado.

Fernando Toledo

quarta-feira, maio 11, 2005

Da bunda ao saco

Olha eu tinha avisado que a minha vontade mesmo era de escrever sobre temas outros, entre os quais o ora destacado pelo grande Eduardo, mas o rumo da prosa estava pra falar mal dos arrasa-quarteirão que vêm vitimando nossos prestigiosos e amados butiquins. Isso porque a pecha de chato já me persegue como sombra. Os amigos, colegas de trabalho, a minha mulher, todos indistintamente (a não ser o Marcão, que gosta dos mau-humorados, mas dele falaremos oportunamente) não agüentam mais a minha compulsão por reclamar. Possivelmente o mundo vá mesmo bem e eu é que seja um baita desmancha-prazer.

Então, fico bem contente quando alguém com a autoridade moral e intelectual do nobre Toledão sai da prisão das reclamações rasteiras na qual me encontro recluso e condenado, para lançar as luzes da razão e do conhecimento sobre o problema. "A cada vez que a carioquice é vendida como um produto, e não praticada no dia-a-dia, ela se torna menos carioquice e mais produto". É isso, meu Deus. E é com tudo. Quando o carnaval deixa de ser brincadeira, folguedo, cultura do povo, pra virar espetáculo, vitrine, vernissage. Quando o futebol deixa de ser esporte pra se tornar profissão, mercado, show business. Quando qualquer espaço ou manifestação que é mediada por lógicas outras que não a do lucro, da vantagem, da mais-valia - e onde, portanto, os indivíduos podem exercer originalidades e expressões que resistem ao processo de coisificação total das mentes e corações – é engoliga, digerida e vomitada sob uma forma enquadrável nas leis do capitalismo. Perdoem-me estar tão fora de moda, mas a culpa, senhores, é mesmo do tal do capitalismo.

E aí chegamos à pérola presidencial que vem acrescentar uma tese importante e, se muito não me engano, inédita numa das áreas do conhecimento acadêmico em que mais o cordial povo tupiniquim é versado: a bundologia. Sim, porque nós conhecemos talvez melhor que qualquer outra nação a importância desta destacada porção da anatomia humana, notadamente a feminina, graças em grande parte aos nossos ancestrais africanos que empiricamente entendem do riscado pra caramba, tanto que até a designação nos legaram.

O papel do traseiro já foi estudado na pedagogia clássica, pois ninguém aprende nada se não "sentar a bunda na cadeira". As implicações no direito civil são conhecidas, quando o sujeito leva o famoso "pé-na-bunda". A taxonomia moral dos cidadãos - importante categoria sociológica desenvolvida nos subúrbios cariocas da década de 20 - também não passou incólume ao taxar os borra-botas e joões-ninguém de toda espécie de "bundas-sujas", enquanto os mandriões e covardes são os "bundas-moles". A futurologia e as ciências esotéricas prontamente identificam destinos gloriosos para o sujeito que nasce de "bunda virada para a lua." E a botânica batizou aquela trepadeira (opa!) da família das acantáceas de "bunda-de-mulata". O marketing cultural nos presenteou com a "bunda music", para não falar, é claro, das indiscutíveis implicações do estudo bundológico para a perfeita compreensão das variações populacionais no tempo-espaço geográfico brasileiro.

Nosso augusto mandatário por felicidade detém muito tempo para preocupar-se com tão alcandorada disciplina científica, até porque o país é bem e devidamente governado pelos escroques do sistema financeiro internacional corporificados no nosso bom ministro-doutor. Ao ex-sindicalista que um dia tomou sobre as costas as esperanças da nação cabe cada vez mais a tarefa única - e aparentemente divertida - de entreter a patuléia que vai se sentindo encurralada, enfarada.

Aliás, quem é que ainda atura o Lula? Eu que me matei nas campanhas, que chorei ridiculamente no dia da vitória de 2000, que perdi amigos e acalentei auspícios por sua causa, não consigo abrir os jornais a cada manhã sem sentir um enorme, um avassalador sentimento de enfado. O que já foi confiança e passou paulatinamente ao desencanto, à decepção, à desconfiança e à indignação, não é agora mais do que um tremendo e indizivel fastio. Das suas gracinhas sem-graça, da sua cara cansativa, dos seus improvisos-gafes que estão botando o Fernando Henrique no chinelo, das prosopopéias populistas, das analogias rasteiras e principalmente de sua inoperância mal-disfarçada. De tudo. Um saco-cheio tamanho que, pelo andar da carruagem, chegará bem depressa às náuseas.

Bons tempos aqueles em que estávamos abandonados à nossa própria sorte, porque são chegadas as eras em que a sorte dos nossos donos é que determina nosso destino. Ou pelo menos parte dele, eis que pelo menos os juros, singelos e inocentes, dependem exclusivamente do (mau) uso que fazemos dos nossos traseiros.

Fernando Szegeri

segunda-feira, maio 09, 2005

Uma nação de mulatas, eis a solução

Mariana Blanc é nossa editora. E ela foi de uma veemência assustadora quando de nosso primeiro encontro de trabalho, no Ex-Bar da Dona Maria, hoje comandado pelo Antipático. Disse a mim e ao Toledo, dedinho em riste, que as discussões não poderiam se estender perpetuamente, que não deveríamos brigar pela última palavra etc etc etc.

E mudarei o assunto, mudarei o assunto. Não sem antes dizer que se eu, na estréia, apenas escorracei o buteco da Garibaldi 13, do texto do Szegeri e do Toledo emergem verdades inapeláveis. Os guias de botequins do Rio de Janeiro, e especificamente o Guia Rio Botequim, trataram de criar monstros que em nada se assemelham ao verdadeiro tesouro carioca. E o verdadeiro tesouro carioca a que me refiro inclui o autêntico buteco e o autêntico freqüentador de buteco. Vejam que são mentiras hodiendas o Belmonte, o Informal, o Manoel & Joaquim, o Devassa. Imitam a forma, mas não têm o espírito. Têm clientes que surgem dos ralos, mas todos têm apenas pose. Isso. São apenas pose. E nós, que somos intransitivamente cariocas, como bem cravou o Toledo, somos responsáveis por, sem guia algum, lutar com unhas e dentes, cotovelos no balcão e escarros no chão, pelos pés-sujos que não entram, de jeito algum, nessas falsas bíblias que infelizmente têm tido êxito.

Mudando o rumo da prosa.

Eu, brizolista roxo, órfão, levava - ainda levo, ainda levo, pouca, mas levo - fé no governo Lula. Mas confesso que irritou-me sobremaneira sua última declaração envolvendo bancos, juros e o comportamento do povo brasileiro. Vejam vocês que nosso Lula propôs uma nação de mulatas do Sargentelli.

Disse, o ex-operário, que o povo brasileiro, ao não mexer o traseiro (foi algo assim que ele disse) em busca de juros mais baixos, contribui para a manutenção dos juros estratosféricos que põem o Brasil no topo da lista, como a nação com os juros mais altos do mundo.

É duro de ouvir. Os bancos, que desde sempre têm lucros que superam lucros, resultados que superam resultados, que contam com a benevolência do Estado, que contam com a vergonhosa esmola do PROER, que esfolam o pobre correntista com taxas absurdas, que pagam mal à categoria dos bancários, que têm, no presidente do Banco Central, hoje com status de ministro, um ferrenho defensor de seus interesses, não têm, na visão estrábico do Lula, responsabilidade alguma pelo patamar dos juros. A culpa é nossa, que não balançamos o rabo.

Fôssemos uma nação de mulatas do Sargentelli, agíssemos como se estivéssemos no Sambão & Sinhã, saíssemos por aí invadindo bancos ao som de ziriguiduns e telecotecos, tamborim e reco-reco na mão, e seríamos uma nação mais próspera, mais fraterna, mais igualitária, com juros ó, rentes ao chão.

Falta-me conhecimento técnico para ir mais fundo na questão. Só sei que tenho nojo do hábito, que já dura alguns anos, do Jornal Nacional entrevistar economistas que fazem pose - como os butiquineiros dos guias - quando falam do Mercado. O mesmo nojo que senti ao ouvir o patético pronunciamento do Lula.

Com a palavra, os Fernandos.
Eduardo Goldenberg

sexta-feira, maio 06, 2005

Um botequim é um botequim é um botequim é um botequim - ou era para ser...

Sou eu, Eduardo Goldenberg, para explicar que, se ao Fernando Toledo sobram o vasto conhecimento, a rara inteligência, a tremenda habilidade do raciocínio, a impressionante erudição que me apequena, falta-lhe, como nem a um recém-nascido nesse século XXI, a habilidade com computadores, editores de blog etc etc etc. Não houve jeito. A Mariana, nossa editora, mandou-lhe cartilhas, apostilas, lições passo-a-passo, mas não houve jeito do Toledão fazer a coisa sozinho. Razão pela qual, escrevo eu - é como anunciará o post ao final - mas o texto é dele. Oremos, dentro dos vagões, para que até a semana que vem ele aprenda.

A idéia exposta por Szé, o Impronunciável, me pareceu muito boa, e gostaria de divagar um pouco sobre o tema, se me permitirem.

“What is a botequim?” – pergunta a figura de calção largo, cheio de florezinhas pretensamente exóticas, com câmera no pescoço. Ao que um Michelin Guide sarará com pinta de flanelinha-pós-banho-de-loja lhe responde, em dialeto de Yázigi: “Oh, mister, botequim é como um pub, só que sem fumaça, onde cariocas típicos (da espécie Homo carioquensis) se encontram com seus amigos para bebericar steinhagers e outros líquidos tipicamente tropicais, entre comentários espirituosos acerca de tudo o que os cerca. E rir desbragadamente desses mesmos comentários. Cabe ressaltar que o Homo carioquensis é um ser comunicativo e brilhante por natureza, capaz de proferir, a cada segundo, máximas que deixariam Oscar Wilde batendo seu vitoriano pezinho de inveja. Alimenta-se de mocotó, feijoada e manjubinhas fritas, e fala um estranho dialeto chamado samba. O míster pode ficar tranqüilo que ele geralmente não mordem – os que se atreveram a morder turistas foram devidamente vacinados, a fim de impedir a proliferação de pragas tropicais como o ebola, a AIDS e o salário mínimo”. E lá vai Mr. O’Neill iniciar sua longa viagem noite adentro, devidamente informado das características do território em que desenvolverá seu safári.
A imagem veiculada do conceito do botequim carioca não está muito distante da apregoada por nosso Zezinho Michelin. No entanto, esse botequim realmente existe? Não, lamento informar.
A cada vez que a carioquice é vendida como um produto, e não praticada no dia-a-dia, ela se torna menos carioquice e mais produto, o que pode significar que a mesma deixa de se tornar fator vivo e mutável de uma equação para assumir a feição de resultado da mesma, a partir de números arbitrariamente atribuídos. Vou tentar explicar.
O espírito carioca nasceu de uma ferrenha e contínua assimilação de diversos espíritos: de um senso de cosmopolitismo assumido como modus vivendi e de uma exacerbação da idéia do Homo cordialis. O carioca é cordialis por natureza, e não por seguir regras escritas em alfarrábios pergaminhais. Quando tal cordialidade deixa de ser espontânea e passa a seguir manuais de conduta, sua carioquice deixa de ser inerente para se tornar inserida (e toda inserção é, forçosamente, artificial) – logo, deixa de ser carioquice para ser outra coisa, num processo de autofagia anunciada. Tal está se dando hoje, quando o interesse em relação ao samba e o choro, duas manifestações aprioristicamente cariocas, sofre – sofrer é o verbo correto, se observarmos o fenômeno sob certos ângulos – um – desculpem o palavrão – boom. Conseqüentemente, o espaço geográfico sob o qual o tal boom ocorre atrai os olhares de nossa malfadada, malbruxada e malcinderelada mídia. E dá-lhe Rio-de-Janeiro-debretiano-pós-pós em doses proboscídeas. Só faltam os blogs do amolador de facas e do acendedor de lampiões.
Curiosamente, como se colocassem a demanda do mercado à frente de sua própria natureza, certos estabelecimentos se renderam ao folclore que criaram involuntariamente, quando tal advérbio ainda era aplicável. E se portam hoje como índios emancipados substituindo o terno pela tanga na hora do Kuarup (tal observação é extremamente pertinente quando se pensa nos caríssimos bares da Lapa carioca exibindo gloriosamente, a peso de ouro, sambistas mal-pagos com folclóricos dentes faltantes e cáries em profusão – “Look, baby, he is old, ugly and poor, but he is from that Mango Tree Samba School. Marvelous!”). Tal procedimento corre o risco, hoje, de se transformar em um pequinês tentando pegar a própria cauda. E não se têm notícias de pequineses que o tenham conseguido. O que significa que, ou a espontaneidade retorna – e de forma espontânea –, ou os bares cariocas embarcarão numa espiral voluntária rumo à extinção de seus objetivos primários.
Tadinhos de nós que cariocas somos, intransitivamente.
Fernando Toledo

quarta-feira, maio 04, 2005

A carnavalização dos butiquins

Confesso que acordei hoje não nos meus melhores dias. Ou será que há dias é que não estou nos melhores hojes? Com certeza, os dias há hojes não estão nos melhores eus.

Acordei com vontade de escrever muito, aquele velho recurso mentiroso de que alguns podemos lançar mão pra poder desfrutar a sensação fugaz de escapar da mudez impingida como pena indelével ao gênero. Com vontade de escrever sobre a descoberta súbita do papel do meu traseiro nos destinos nacionais. Sobre o homem que morreu dançando um samba do Ismael no Bar do Tião e sobre o mau humor que ando destilando nas conversas de elevador. De contar velhas histórias sobre um outdoor do Centro da Cidade com propaganda de lingerie e de dois namorados que, de repente, perceberam que o prato de sopa de ervilha que compartilhavam os desapaixonaria para sempre. De como, quanto e porque eu babo pela Mariana e de como meus conectados amigos apareceram na minha existência bem errante. Sobre todos aqueles assuntos em que somos versados nos primeiros três minutos, como dizia o bom Otto, o original.

Mas eis que o tema é o butiquim, pra variar. Então vou-me permitir sair da casuística e ir pra teoria geral. Sobre o bar da Maria já disse eu certa feita que bom ou ruim, lenda ou realidade, só não se podia negar-lhe a condição de um butiquim típico, autêntico, ou se preferirmos, devidamente carioca. E aí está o xis da "qüestã", assim mesmo com trema e sem o "o" e com o palito de "fósfo" no canto da boca.

Porque, de uns tempos pra cá, o que era natureza acabou virando artifício. O hábito naturalíssimo de entrar no bar e tomar um cafezinho virou objeto de tese de doutorado. O tira-gosto que servia basicamente pra forrar o ninho da gelada derrubada pela goela foi alçado à condição de iguaria da gastronomia internacional, com direito a livro e, vira e mexe, matéria no jornal. Há sites especializados em botecos e até mesmo um prestigiado guia, igualzinho àquele antigo "Praias de Norte a Sul", e o muito mais antigo "Igrejas da cidade da Bahia de São Salvador".

Qualquer Zé Dentro d’Água salta hoje na cidade do Rio de Janeiro munido do seu guia – espécie de vade mecum dos otários - e entra no Paulistinha pedindo uma "sacanagem" apimentada. A experiência básica e essencial de butiquinar entre quitudes insalubres, bebidas duvidosas e papos ainda mais duvidosos está deixando de ser aquela arte iniciática, que se descobre aos poucos, guiada pelos mestres e aprendida pela experiência progressiva e paciente observação daquele doce e simples mistério que congrega as almas abandonadas pelos bares.

Agoniza e estrebucha pelas esquinas fedorentas do Centro da Cidade a figura do butequeiro prático, aquele que faz do bar a sua sala de visita, copa, escritório e consultório sentimental, valendo-se do anonimato necessário e quase envergonhado que só os grandes pés-sujos propiciam. Que usa daquela agregação forçada e forçosa e da conseqüente profusão de conexões – ói nóis aí! – superficiais ali formadas como expediente pra driblar a solidão, a impessoalidade e a crueldade do mundo porta-afora. Esses são os nossos bares, com nossos bêbados chatos, os sentimentais, os filósofos, políticos. Brilhantes ou idiotas. Humanos.

Pululam, de outra parte, os butequeiros teóricos, aqueles que reconhecem na instituição butiquim um mediador social relevante para o encontro do ethos da cultura popular com as categorias abstratas imersas no inconsciente coletivo. São o correlato necessário dos sambistas de Internet. Os doutores do balcão, que batem no peito propalando sua condição de bebedores e escrevem artigos e criam teorias que engendram modelos. Dos modelos surgidos não tardaram os simulacros, pensados, planejados. Tá cheio de pseudo-buteco em que a gordura escorrida no azulejo consta do projeto arquitetônico. Daí pros marqueteiros, um pulo. O Bar da Maria é só mais uma vítima, assim como o saudoso Belmonte da Praia do Flamengo.

Igualzinho fizeram com o carnaval, o futebol etc. etc.

Fernando Szegeri

terça-feira, maio 03, 2005

O bar era da Dona Maria

Preciso justificar os adjetivos com que os Fernandos, aí ao lado, me carimbaram. Apaixonado, obsessivo, combativo e fiel, disse o Szegeri. Brigão e passional, disse o Toledo. Pois bem.

Sou, de fato, confesso em voz alta, tudo isso. E um dos alvos de minhas paixões, uma de minhas obsessões, é o buteco. Brigo defendendo meus prediletos, sou fiel a eles, e devo confessar que quem implantou em mim essa tara, pela primeira vez, foi o Lélio Ruy, meu professor de química quando tinha eu 14, 15, 16 anos de idade, sendo importantíssimo esclarecer que não sei rigorosamente nada sobre química, orgânica ou inorgânica, mas de buteco entendo um bocado, sendo importantíssimo esclarecer que esse bocado é quase-nada diante do conhecimento vasto que os Fernandos carregam dentro de si. E é importantíssimo esclarecer também que minha inaptidão para a matéria química não se deve ao Lélio, mas apenas ao meu desinteresse absoluto. Ansiava pelo final das aulas quando íamos, com impressionante regularidade, aos butecos mais vagabundos da Tijuca e adjacências. Foi assim que conheci o Bar da Maria. Vão tomando nota, vão tomando nota!

Apaixonei-me pelo Bar da Maria, ou Bar da Dona Maria, como queiram, na Rua Garibaldi, na Muda, rua que merece tombamento apenas pelo fato de que ali residem dois monstros sagrados: Aldir Blanc e Moacyr Luz. Um bar perfeito. Pé direito alto, balcão de mármore, geladeira das antigas, porta de madeira, uma portuguesa atrás do balcão, a dona Maria, e um cracaço no papel de meio-campo, o Célio, que já cantou pra subir. Mesinhas e cadeiras clássicas, uma frondosa árvore na calçada em frente, o menor banheiro do mundo, que dava um charme a mais, uma cerveja que era gelada ao extremo, segundo lenda do Môa, graças a um santo defeito no termostato, e uma seleção de sócios-atletas de fazer tremer a Muda: Aldir Blanc, Moacyr Luz, Walter Hack, Tupiara, Marquinho, Basile, Baiano, Sérgio Touro, Xanduca, o Lélio, o Bebiano, um troço, um troço. Passei a freqüentar até que eu mesmo abri meu bar, o Estephanio´s, o que afastou-me, lentamente, do número 13 da Garibaldi.

Pois bem. Voltei lá no dia 30 de abril, sábado passado, atendendo convite da Mariana Blanc e do Fernando Toledo, para a primeira reunião de pauta (!!!!!) da Conexão Irajá. E de lá saí um triste sorumbático e pungente. É que o Bar não é mais da Dona Maria. Um de seus herdeiros tomou-lhe o cetro, a coroa, o trono, o leme, o timão, e aquilo não é mais um buteco, e quero lhes explicar o por quê.

O sujeito tem uma pose assim de, digamos, pós-graduado em marketing, um dos males do século. E como todo marqueteiro, mente. A primeira mentira está estampada num quadro de mau gosto pendurado no batente da entrada: "ELEITO O MAIS TRADICIONAL BAR DO RIO DE JANEIRO". Eleito por quem, cara pálida?, eu perguntava antes mesmo do primeiro gole. A eleição não existiu, mas relaxei. Desce uma, desce duas, vou mijar. Anotem o segundo aviso que avistei, da lavra do marqueteiro: "NÃO É PERMITIDO TRAZER COMIDA DE FORA PARA O BAR QUE, COMO TODO ESTABELECIMENTO COMERCIAL, VISA O LUCRO". Mijei e vomitei, muito por causa do negrito que destacava a palavra "lucro". Uma deselegância, uma grossura, e minha fidelidade às tradições e minha combatividade começavam a dar os ares da graça. Toledo acalmou-me com uma dose de maracujá-amigo.

Notando minha revolta, um dos sócios atletas ainda contou-me umas passagens recentes. Tomem nota, tomem nota!

01) não é mais permitido, aos sábados, sentar dentro do bar se você for apenas beber. É preciso que você queira comer a "tradicional feijoada com carnes nobres" (está assim no cardápio).

02) você pede uma dose de uísque. Pede outra. Daí pede umas pedrinhas de gelo. O marqueteiro diz solene: "Um real".

03) um dia o bar abre com um novo outdoor bolado pelo marqueteiro que deixa o Washington Olivetto no chinelo: "É PROIBIDO BATUCAR E TAMBORILAR OS DEDOS NAS MESAS, CANTAR, E TOCAR QUALQUER INSTRUMENTO". O outdoor foi retirado no mesmo dia, à tarde, depois que um telefonema anônimo ameaçou mandar o bar pelos ares.

04) revoltado com a bagunça (ai, ai, ai...), no carnaval passado, o marqueteiro ameaçou não abrir o bar nos dias de ensaio do Nem Muda Nem Sai de Cima, o bloco da área. Convencido, abriu. Mas a cerveja saltou de R$2,50 pra R$5,00. Um gênio.

Peralá, Toledão! Peralá, Szegeri! Estou implicando à toa com o Antipático ou tenho meus dedinhos de razão? Você vai a um buteco e não pode apenas beber????? (como me revolta o "apenas"...)

Você está bebendo ali, quietão, aquele uísque cheio de mercúrio, está pouco preocupado com a origem do vasilhame, está observando o vai-e-vem das moças na calçada, daí pede um gelinho e o sujeito lhe esfrega o indicador na fuça pra dizer que isso vai lhe custar um real?????

Você vai ao buteco que ganhou fama graças ao violão do Moacyr, às aparições do Blanc, ao surdo do Tupiara, ao tamborim do Julinho, ao Nem Muda Nem Sai de Cima, e se depara com um aviso de que música é proibido?????

Nos dias de festa, quando a rua está cheia, quando a festa é de Carnaval, a cerveja dobra de preço?????

Aguardo vossas sábias impressões, Fernandos. Estou aqui, sentadinho no chão de pernas cruzadas, dentro do vagão do trem, esperando ansioso as lições que costumeiramente escapam de vocês quando abrem a boca.

Eduardo Goldenberg

segunda-feira, maio 02, 2005

Em todo lugar sou estrangeira

Acqua Marcia
(Ivan Lins e Marina Colasanti)

"Em todo lugar sou estrangeira / Menos na minha casa
E mesmo na minha casa / Nenhum habitante sabe / Que o gosto justo da água
É aquele daquela água / Que em minha terra se bebe"

É da natureza de todo ser humano estar conectado, unido, ligado, relacionado, combinado. Nascemos da união de um óvulo e um espermatozóide. Nos desenvolvemos através do cordão umbilical. Vivenciamos conexões antes mesmo de nascermos que nos acompanharão para sempre, pra nossa alegria ou danação eterna.

Mas como o ser supremo não é parente do Severino Cavalcanti e ocupa seu cargo por méritos reais e não por ser pai nem padrasto, alguma compensação tinha que haver nessa história de conexões. É que nelas existem 3 pequenos milagres: a memória, o aprendizado, e as escolhas.

A memória é a parte mágica do que nos torna diferentes do Severino, é a criação na sua plenitude. Mais do que simples armazenagem de atos reflexos, a memória nos transporta a momentos tão importantes de nosso passado que se tornam indestrutíveis e indeléveis. A grande ligação da memória, ela própria construída por pequenas conexões chamadas sinapses, é que nos permite acumular experiências e com isso chegar ao segundo milagre: aprender.

Nós aprendemos o certo e o errado, o prazer e a vontade, o desespero e a solidão, a manhã e o bolo de fubá, a tardinha e a sesta, o choro e a chuva, a chuva e o abraço. Nós aprendemos e guardamos as melhores lições, as mestras das melhores escolhas. Aprendemos com nossos erros e ajustamos as nossas trajetórias por estarmos sempre atados à recompensa do acerto, à punição dos equívocos e à exuberância de nossas memórias.

Me lembro de ter entendido pela primeira vez o conceito de “mulher mal-comida” antes de saber de cama, quando me disseram “lembra da fulana, mulher daquele pianista? Então. Aquilo é uma mulher mal-comida”. Eu devia ter uns oito anos. Lembro de ter finalmente alcançado o conceito de boçalidade quando uma amiga do segundo grau me apresentou um primo que era nerd, punheteiro, espinhudo e babava numa gravatinha borboleta no final das risadas idiotas. Memória, aprendizado, escolha, experiência, memória.

Pareço estar me afastando num caminho sem volta, mas não. Estou nesta página. onde me trouxe o convite desses três loucos. Conectada por laços indizíveis a eles, vou ativando meu bluetooth e através de luminosos raios brilhantes vou ligando cada um deles à minha vida, religando as memórias desses amores, vou me ligando à melhor parte de mim. Às viagens pra Búzios, à saudade incessante do Marco Aurélio, à voz e ao abraço do Paulo Emílio, ao cheiro da casa de Saquarema. Ao riso do Mello, ao peito do meu pai, às mãos do meu avô. Vou conectando risoto com ovos nevados. Vou interligando os porres e as gargalhadas. Vou me conectando minhas irmãs que morreram com a enlouquecedora ausência do meu filho, filho inato do homem que eu mais amei, mortos meu filho, meu amor e meu futuro. O futuro, onde estão todos os meus erros e os sonhos que ainda vou frustrar. Vou estendendo os raios brilhantes pelos meus livros, pelos amigos, por garrafas de Schweppes e Jack Daniels, por peças inteiras de Prima Donna, pela coleção do Nelson e do Rex Stout, pelos CDs da Fátima Guedes, por praias de areia fininha, pelos oceanos, pelas bocas, pelos tesouros dos naufrágios... vou montando minha rede.

Agradeço o convite pra estréia. Estendo, respeitosamente, esse convite à vocês, 16 leitores que vieram dar com seus costados nessa enseada. O negócio agora é Conexão. Sem Manhattan, sem corte, sem juiz nem cartola. Sem champagne, sem gravata Hermes, sem ferryboat. Sem pedigree nem guarda-costas. Só uma linha de passe bem jogada, uma gelada com cotovelo no balcão, um prato de pirão com farinha, uma cachaça mineira, pau esfolado na xota roubada entre o cinto de segurança e o freio de mão. Um pouco de henê, blondor, esmalte vermelho comido na pontinha da unha, um sonoro “vai tomar no cu” pra desopilar o (alguém ainda reconhece esse termo?) fígado. É pedir muito?

Moço, negóseguim: dois bilhetes da linha dois. Eu tou indo embora que não se fazem mais histórias, vinganças, bisavós, rezadeiras, cafezinhos, machos, amores e navalhas e cortes e vizinhas nessa terra como as de lá. Um bilhete, pronto, um bilhete só seu moço, eu tou indo pra Irajá e não acho que vá voltar.
Mariana Blanc
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