sexta-feira, julho 22, 2005

Elogio do porre


Beber, como tudo que é perpassado pelo que nos distingue dos outros mamíferos, é uma Arte (assim mesmo, com maiúscula). Não consta, nos anais e vaginais da vasta historiografia das espécies, que outras criaturas tenham abandonado o saudável leite de suas mães em favor de uma substância que arde na garganta e inebria os sentidos, como diriam os fãs dos poetas românticos.
Onde se situa, exatamente, a nossa diferença em relação a estes outros seres, tão desinteressantes (não consta, a menos em relatos não muito críveis – obviamente relatados por indivíduos para lá de Marrakech –, que alguém tenha perdido uma noite a discorrer acerca da natureza ontológica do Universo, da escalação da Seleção Brasileira, da política externa de Bushes e afins, ao lado de florezinhas, abelhinhas, fiéis da Universal e outras criaturas chatas assemelhadas), onde se situa, afinal? Na capacidade de abstração. Como somos capazes de construir, elaborar e – o mais importante – nos deleitar com o abstrato, este atinge níveis de importância em nosso viver que não seriam admissíveis nos exemplos fora da existência humana. Somos, no botequim, a essência mesmo do Homo ludens de Huizinga, exercitando a criação de maneira desproposital e, por isto mesmo, mais digna do epíteto.
Por este motivo entre outros, apreciamos o porre como Arte. Note-se bem, não o porre que denigre, que nos torna mais próximos de irracionais do que de nós mesmos. Apreciamos, sim, o porre saudável, aquele que desorienta mas que permite a noção – pelo menos mínima – do quanto estamos desorientados; o porre que rompe as amarras que nos são impostas no dia-a-dia e faz com que afloremos de maneira apoteótica; o porre que, no dizer de Rimbaud, produziria o desregramento dos sentidos, contudo sem ser total – pois que, em sua totalidade, este mesmo desregramento acaba por nos afastar de nós mesmos e tornar-nos mais desregramento que sentidos. No sentido perfeito de onde chegar encontra-se o porre. O bebedor profissional – não o alcoólatra contumaz e incontrolável – sabe, sempre, aonde quer chegar. E se ultrapassa a linha divisória, é capaz de não ultrapassá-la novamente, pelo menos de maneira idêntica.
Os botequins são os templos do porre. Neles, a abstração, o entregar-se a uma atividade que não, necessariamente, resulta em ganhos imediatos, constitui-se, mesmo, em liturgia. A utilidade do inútil é ali louvada: boa parte da população que infesta os consultórios de psicanalistas não o faria caso fosse capaz de desenvolver uma relação saudável com a fauna, a flora e o meio-ambiente dos mesmos. O botequim é o lar do não-lar, em que as idiossincrasias ao mesmo tempo se acentuam e se desvanecem; onde o egoístico “eu” se afirma enquanto exercita sua relação com diversos outros “eus”.
Boteco é religião: promove um encontro entre aquilo que mais temos de íntimo com aquilo que mais nos caracteriza como membros de uma coletividade. Todo um saudável exercício de solidão e convívio se estabelece e se afirma, em meio às rodas ocasionais de porrinha, sueca ou de bate-papo puro e simples. No boteco, todos se igualam, desde o momento em que há a aceitação no grupo: o bacharelado o mestrado e o botequinado têm igual respaldo. Existem somente os maus e os bons copos, medida máxima do ser, no momento da catarse.
Catarse esta que é a própria alma do boteco.

Fernando Toledo

segunda-feira, julho 18, 2005

Advogados, de novo

O Toledão, dia desses, aqui mesmo na Conexão, tratou dos advogados. Como sou um deles, e desafio alguém a apontar um único advogado mais apaixonado que eu no trato com a profissão, quero trazer à tona, de novo, essa figura, eis que considero-me apto a tratar do troço. E veio a idéia de falar de advogados quando ontem, conversando com uns amigos, e o assunto da roda era justamente o advogado, eu disse algo como "não há um único advogado rico que não esteja de lama até o alto da cabeça". E explico.

Falávamos do Ministro da Justiça. Advogado, e rico, o Ministro tem em sua carteira de clientes as recentes vítimas das operações encabeçadas pela Polícia Federal. Sonegadores de impostos, socialites que gastam os tubos de dinheiro sem origem clara em lojinhas como a Daslu, empresas fraudadoras, como a Schincariol, Silveirinhas etc etc etc, o que garante a ele honorários sempre na casa das centenas de milhares de reais. Disse alguém, durante a conversa, que ele, como tantos outros, estuda as tais brechas da lei para legitimar o que é ilícito e o Judiciário, que brande a venda dos olhos em defesa do tecnicismo agudo, acaba por tornar legal uma série de falcatruas. É o velho papo de que a Justiça acaba por legitimar o que é legal em detrimento do que é justo. E assim como ele, Ministro, outros tantos advogados, donos de bancas biliardárias, pareceristas que cobram milhões por opiniões que tomam força de lei, vão ficando ricos sendo, apenas, advogados. O que dá aparência de verdade, sem exceção, à minha frase dita lá no alto.

Eu, que ingressei na carreira em busca da Justiça, e não da legalidade, vou sobrevivendo, apenas. Daí mamãe pedir, "vá ser Juiz, meu filho", daí papai dizer, "tente um concurso, garoto!", e por aí vai. Ocorre que é advogando que eu sou mais inteiro, mais feliz, mais realizado, mais apaixonado. Gosto das causas que os ricões dizem "pequenas" e "pouco interessantes do ponto de vista financeiro". Minha maior alegria até o momento, foi a seguinte.

Madá, que fazia faxina lá em casa, chegou um dia arrasada pra trabalhar. Contou-me que tinham sumido com R$100,00 de sua poupança. E foi, a Madá, à gerente do Banco. Que lhe disse apenas o seguinte: "Filhinha... estamos cansados desse golpe. Faça o seguinte. Saque o resto da sua poupança e contrate um bom advogado para ingressar com uma ação contra o banco. Eu mesma faço questão de comparecer à audiência para desmascarar seu golpe. Passe bem.". E riu, a filha da puta.

Ingressei com uma ação representando a Madá. E de fato a gerente do Bradesco compareceu à audiência. Eu, o bom Szegeri me conhece e sabe que isso é verdade, chorava feito um ganso gripado enquanto fazia a defesa da Madá diante do Juiz, socando a mesa, relatando os fatos e Madá, tadinha, hoje sentada numa nuvem me vendo escrever isso aqui, de cabeça baixa chorava e enxugava as lágrimas diante da pernóstica gerente. E o Juiz sentenciou na hora, condenando o banco a devolver à Madá os R$100,00 corrigidos desde a data do saque fraudulento e a pagar-lhe 40 salários mínimos a título de dano moral.

Não é possível descrever-lhes a alegria da Madá. Sentiu-se, ali, provavelmente, gente grande pela primeira vez. E quando recebeu, de minhas mãos, semanas depois, o dinheiro, algo perto de R$10.000,00, retirou do maço duas notas de R$100,00 e me disse: "Só queria o que é meu, Eduardo. O resto é seu.". Depois de muito discutir com a Madá, ela aceitou o dinheiro mas dois dias depois chegou à minha casa um ar-condicionado tinindo de novo, presente dela.

Eis o papel que pretendo exercer dia após dia: dar dignidade a quem não tem. Pode lhes parecer utópico demais, inocente demais, mas é aí que reside minha satisfação profissional, e esse foi apenas um dos momentos em que chorei diante de uma vitória diante de um grande conglomoreado. Dirá alguém... "faça concurso pra Defensoria!", e eu direi que não, que quero mesmo é advogar, valendo-me do meu conhecimento, da minha capacidade, já que um Defensor não tem tempo para dedicar, a cada um, a atenção necessária e o carinho - por que não? - que essa gente mais-que-merece.

É o que eu queria dizer ao Toledão. Que os advogados, os verdadeiros, estão acima das babaquices em latim, da pompa da linguagem inatingível, da cumplicidade que enriquece, da vilania que legitima o ilícito, da luta pelo que é legal em detrimento do que é justo.

Perdão, senhores, pelo desabafo. Mas hoje me deu uma saudade estranha da Madá e essa vontade, quase infantil, de defender a profissão que eu abracei com tanta gana, tão mal vista graças a porcos que defendem ladrões em troca de grana, grana, grana.

Eduardo Goldenberg

sexta-feira, julho 15, 2005

Templos, templos, templos


Quando se retira de um membro do povo toda e qualquer consciência de que faz parte de um todo, o indivíduo em questão passa a considerar-se apenas isto: indivíduo, em contraposição ao que deveria ser, em última instância: um ser humano. Pois o homem nunca é apenas ele, um compartimento estanque, e sim membro de uma coletividade, parte atuante da mesma, na medida em que cada um de seus atos influencia o seu estrato, mesmo que a nível infinitesimal. Seremos todos infinitesimais para todo o sempre, se assumirmos a idéia de que não passamos de indivíduos. Desta forma, se a nós mesmos negamos o respeito em termos humanos, num processo de auto-subestimação galopante, o que dirá do respeito em relação aos que nos rodeiam?
O fenômeno realmente parece ter atingido um grau irreversível: libertos que fomos dos ônus da Cultura, substituída por simulacros estéreis, deixamos também de usufruir os bons frutos da coletividade, e buscamos saídas para o vazio que se estabelece no estrépito infindável e intransferível da valorização do isolamento pessoal. Desta forma, grassam os diversos tipos de templos, placebos onipresentes, que colorem e sonorizam nossas solidões, fazendo-as – apenas – parecer menos trágicas. E o maior dos deuses de todos estes templos de caráter paliativo, com certeza, é o Consumo.
Este processo não é monopólio de determinada classe social: todos estamos sujeitos ao mesmo. Nas comunidades extremamente pobres, duas faces do tal deus se apresentam: a droga e a praga das igrejas evangélicas. O mundo do tráfico é sórdido, assustador, sanguinário, repugnante, para aqueles situados à margem do mesmo (marginais – no sentido clássico – às avessas), mas, para os nascidos e crescidos no terreno da desesperança absoluta, esvaziados como descrito no primeiro parágrafo, adquire ares extremamente atraentes. A partir de uma experiência de natureza interna, que isola (de maneira gritante, como no caso da cocaína) o ser dos que o rodeia (já que é impossível compartilhar uma experiência deste tipo), causa-se um estado de espírito que pode levar, em casos extremos, a uma negação de todo e qualquer conceito ético, o que pode ser comprovado pela relação entre os pertencentes ao meio, em que nenhum grau de lealdade pode ser ao menos entrevisto. As regras passam a não mais valer, mesmo aquelas inspiradas pelo terror espalhado – nem a este se respeita, mesmo que ao custo de morte dolorosa em meio à tortura. Tudo isto perpassado por uma óptica de vender, comprar e consumir.
O outro caso, em relação às populações carentes, é o cognominado Deus. Não cabe aqui uma discussão sobre a existência ou não do mesmo em termos físicos, espirituais etc., mas sim como é aplicado o conceito. Deus, no universo em questão, não assume a forma de manifestação etérea onipresente, com a qual o reencontrar-se dar-se-ia por meio da religião. Não: aqui o que se chama religião é um fim em si mesmo, e, em lugar de promover a aproximação entre seres humanos (e sua dita essência, por conseguinte), na verdade é disseminadora do afastamento. Exemplo claro disso é a imposição, de determinadas seitas, de um certo tipo de vestimenta ao fiel. Tipo este não-condizente com a realidade social que o rodeia, operando assim como fator diferenciador do fiel em relação àqueles condenados às chamas eternas (ou seja, o resto da espécie humana, aquele resto que não coaduna com o ideário macedista, davimirandesco, rexhumbardiano, piadacoziniano e assemelhados). A empáfia de muitos membros (convictos, por meio de um calvinismo rasteiro capaz de fazer corar o mais quaker dos mórmons de Israel, de que são o povo escolhido), oriundos de camadas paupérrimas, frente aos que não professam a sua fé, é assustadora. E nem é preciso apontar que um fenômeno religioso deveria atuar de forma absolutamente contrária ao que ocorre. Ou seja, desta forma, Deus – ou seja lá que homônimo ostente – pode ser comprado ou subornado, através de uma proto-abnegação ou, simplesmente, de dinheiro, moeda mais aceita em geral. A quantidade de grana que circula no meio atesta indiscutivelmente que esta atividade que deveria ser altamente piedosa na verdade é uma das mais lucrativas possíveis.
Quando voltamos, contudo, o olhar para classes mais endinheiradas, o foco muda. A religião está presente, sim, muitas vezes. Idem a droga. Mas o que catalisa, anestesia e se onipresenta é o consumo puro, despido de subterfúgios. Como se a ascensão social desenvolvesse um olhar clínico e cínico que abolisse completamente a necessidade de mascaramento da natureza ontológica do motivo.
O incidente com a rede Daslu, esta semana, apenas demonstra o quanto o dinheiro deixou de se um meio de aquisição de bens para se tornar mera e poderosamente um fim. Não se trata mais de moeda de troca de bens: tornou-se algo diferente. Os bens trocados pelos mesmos não possuem mais um valor real: o valor é simplesmente o quanto se paga pelos mesmos. Ou alguém realmente acredita que uma bolsa com alcinhas ridículas – a qual, analisando friamente, não executa tarefas superiores à de uma sacola de supermercado – possa realmente custar trinta vezes a renda mensal de uma família? O dístico exibido às portas da Daslu, “Só entre se for rico”, só pode se tratar de sarcasmo puro e simples, num país como o Brasil. E o que dizer da exigência de apresentação de identidade, CPF, comprovante de residência etc. para permitir a entrada de consumidores em potencial num espaço físico que se destina simplesmente a vender, e vender exclusivamente bens supérfluos? Não seria melhor tatuar logo números nos braços do estante da população impedida de adentrar o recinto? A loja é algo assim como o Paraíso do novo deus, onde seus eleitos se dedicam a epifanias regadas a doses maciças de champagnes de 200 dólares a garrafa, enquanto exibem sua mediocridade e futilidade bem-pagas por entre as prateleiras fluorescentes.
Alguém já disse que é impossível que algum ser humano possua um milhão de dólares impunemente. E o incidente desta semana prova isto, de forma indelével. O que são 10 milhões de reais (quantia a que a Polícia federal conseguiu chegar, ou seja, o rombo deve ser muito maior), no erário público (dinheiro de impostos, a que nenhum trabalhador pode se negar)? Com certeza, uma quantia suficiente para impedir que metade da população da Rocinha se volte para o tráfico, para a violência gratuita, para a robotização das seitas evangélicas, durante anos. E isto apenas em uma única apreensão, em uma única loja.
Estaria o pequinês correndo atrás de sua própria cauda? Interrelacionariam-se os diferentes templos de consumo? Estaríamos vivendo no meio de um processo de retroalimentação contínua, em que o roubo engravatado puro e simples gera rombos no orçamento público, gerando falta de Cultura e de conseqüentemente de cidadania, que reverteria em mais dinheiro rolando em cofres isentos de tributações, como os do tráfico e das igrejas em questão, para que mais e mais mergulhemos num vórtice de ignorância e bestialismo, fatores estas que alimentariam de novo, e de novo, e de novo, o momento já irreconhecível em que tudo se inicia?
Ou seria tudo isto simplesmente fruto de uma inocente coincidência, na qual estamos, acidentalmente, envolvidos?
Com a palavra Ubaldo, o paranóico, que com certeza enxergaria e se pronunciaria com muito mais decência e sinceridade que uma criatura como Hélio Honda, assessor jurídico da FIESP, o qual declarou, acerca do que ele considera uma arbitrariedade da Polícia Federal, no último caso:
“Há uma grande diferença entre a invasão de uma loja e de uma favela com criminosos armados”.
Há sim, Sr. Honda, uma grande diferença: nas favelas, ainda há – por incrível que pareça – inocentes.
Fernando Toledo

quarta-feira, julho 13, 2005

O eu profundo e os outros eus

Pois não é que o nobre Toledo em boa hora começa a colocar o dedo em feridas mais profundas e questiona os fundamentos da nossa democracia, valor quase religioso no nosso ocidente pseudo-pós-moderno? Vamos por hoje a um pouco de filosofia, então.

Um eminente professor-pensador de insuspeita competência e respeitabilidade intelectual há muitos anos gostava de usar um exemplo caricato para questionar esses absolutismos valorativos normalmente impensados, aos quais alguns bons companheiros de jornada tanto gostam de abraçar-se. Por ocasião de pleitos estudantis pueris por paridade indiscriminada em todas as instâncias decisórias da Universidade, o professor indagava: imaginem se, num hospital, resolverem pleitear a paridade entre doentes, funcionários e médicos para todas as decisões coletivas, inclusive às atinente à padronização de procedimentos? Pois é isso. Na verdade, a história vai mostrando que a democracia só é pensável mesmo enquanto valor para a gerência do estado. E mesmo assim, nem por falta de inventarem algo melhor, como quer o bom Zé Sérgio, mas algo que tenha menos defeitos. Simplesmente é isso: a democracia é, das formas de gestão desse leviatã que criamos e que temos que dar conta, não mais do que a menos pior. E por um motivo bem simples, herdado do liberalismo pós-iluminista da qual é filha direta: é o sistema que mais diretamente valoriza o indivíduo como realidade fundamental, a ser respeitado em sua existência física, social e política. Por isso, só nas democracias tem sentido falar em direitos fundamentais.

Mas não posso fazer coro com meu companheiro das sextas-feiras quando diz que o ouvir o outro só traz a perda de si mesmo. Pelo contrário, desde Platão, ainda que acreditasse que as formas puras e ideais da verdade preexistissem aos indivíduos, essa só era atingível pelo exercício do diálogo, que visava depurar as imperfeições da linguagem. Creio ainda, depois de 25 séculos, que o exercício do diálogo seja a única forma que permita que construamos uma razão despojada do totalitarismo que caracterizou-a desde a modernidade. Ir ao outro jamais representará o despojamento dos meus próprios sentimentos, valores e convicções, mas submetê-lo ao necessário juízo de validade e plausibilidade (vale dizer, de razoabilidade) é a única coisa que pode nos apartar dos barbarismos totalitaristas que os séculos têm assistido.

Isso não quer dizer, obviamente, que se possa prescindir de algumas diretrizes da razão universal, que é justamente a que brota de uma possibilidade de consciência humana tão ampla quanto possível acerca de algumas validades fundamentais. Sem isso, simplesmente fenece a idéia, por exemplo, de direitos humanos. Da mesma forma, não pode o indivíduo abrir mão de um mínimo de idealismo, sem o qual ele não terá a capacidade de engendrar a idéia de uma realidade diferente da dada, conseqüentemente estando forçado a abdicar de qualquer interferência transformadora sobre a realidade. Da intersecção desse idealismo desejável com a necessária validação pelo diálogo é que se constrói o jogo político, pois a gestão da coisa pública passa por instâncias de intermediação que componham os diferentes idealismos, submetendo-os ao “teste” dialógico de razoabilidade.

Assim como os indivíduos, as instâncias políticas não podem abdicar desse grau de idealismo político apriorístico, vale dizer, não podem abdicar de ter um programa, de teses, de soluções próprias, diretrizes etc., ainda que a implementação desses tenha que ser dialogada permanentemente com as demais forças políticas que componham o quadro social. A idéia de uma democracia direta total a que levam, no limite, certas concepções de participação da sociedade civil na gestão pública, esbarra nesse óbice, portanto. Se estivermos sempre subordinados às razões particulares envolvidas na resolução de um determinado problema, na circunscrição de uma determinada questão, perde-se a possibilidade que a partir de uma instância dirigente mais universal possa-se implementar vetores de transformação social dirigidos a objetivos socialmente desejados. Ou seja, a existência da instituição política formal visa unicamente assegurar que, ao largo dos interesses particulares envolvidos em questões específicas, faça-se valer uma vontade mais geral orientadora da ação governativa, em busca do modelo social cuja representação é mais disseminada entre a maioria dos indivíduos, com os valores e representações mais universais.

É, portanto, muito bonito achar que as instâncias da sociedade civil possam deter o controle de todas as esferas das decisões públicas, mas salta aos olhos a ingenuidade da tese “democracia primeiro, justiça social depois”. Porque, como dito, essa democracia “direta” é particularista e não dá conta da composição de uma razão mais universal que tenha a capacidade de estabelecer diretrizes de intervenção na realidade rumo a um objetivo reconhecido comumente. Ademais, pressupõe uma capacidade ociosa de racionalidade dialógica disseminada nas instâncias sociais, desconsiderando que também nelas – e não só nas estruturas limitadas e defeituosas da democracia formal - os tentáculos da reificação quebra as possibilidades de um diálogo eficaz para o solucionamento de problemas, mesmo os particulares. Esses tentáculos há muito já abandonaram as esferas das relações mediatizadas pela política (poder) ou pela economia (dinheiro), para atingir as esferas mais particulares, da vida privada. Então, o problema do funcionamento do sistema democrático não estão circunscritas ao sistema em si, os seus limites e as suas contradições estruturais, como quer o Marcão.

Então, nobre Toledo, temo que você esteja confundindo “galhos com bugalhos”, como diria aquele conhecido dirigente corinthiano. Que o sistema democrático tenha limitações é necessário se admitir, por força de que não se pode ter uma homogeneidade completa de valores e representações, de modo que o diálogo e a participação direta e eqüitativa de todos os indivíduos seja capaz de gerir todas as esferas da vida social. Há que haver, portanto, um corpo diretivo institucionalizado a ser ocupado por um grupo de indivíduos que portem um conjunto de valores, representações e ideários programáticos que pareça ao conjunto dos indivíduos, capazes de implementação daqueles valores reconhecidos como os mais universais. Essa função diretiva geral, direcionada para a garantia da segurança e subsistência do corpo social, será pois exercida pelo poder político mediado democraticamente, como garantia da preservação dos indivíduos e de seus valores mais universais. Já as esferas de gestão mais particulares, podem estar subordinadas a instâncias decisórias menos formalizadas, desde que as condições mínimas de exercício dialógico estejam preservadas.

Como corolário, o que eu imagino como utopia a ser posta como orientadora de nossa ação política é um sistema político formalizado contido aos limites estritos das necessidades que temos dele, com as outras esferas da vida social mediatizadas por uma racionalidade inclusiva e com o mínimos de instrumentalização formal. Isso passa por duas vias de ação: internamente ao sistema, no sentido de apropriação dos meios de poder e meios econômicos para o serviço da coletividade, para o banimento das desigualdades e provimento das necessidades materiais de todos os seres humanos, o que significa o fim do capitalismo. Num segundo passo, no sentido radicalmente oposto ao que foi feito por todos os sistemas socialistas, o confinamento dos sistemas aos seus limites, a desregulamentação formal da vida social, para que as comunidades possam respirar e retomar o desenvolvimento de uma racionalidade coletiva que dê conta dos processos decisórios, das normas de convivência etc.

Não se tem certeza de que essas comunidades conseguirão. Há uma aposta no valor intrínseco de uma racionalidade compartilhada, mas não se tem garantia de suas possibilidades de funcionalidade, seja pela incógnita relativamente à perspectiva de recuperação das estruturas reificadas do mundo da vida privada, seja pelos próprios limites naturais dessa nova racionalidade, que não pode ser completamente abrangente, haja vista os processos que refogem à própria idéia de racionalidade.
Fernando Szegeri

segunda-feira, julho 11, 2005

Dona Ivone e o presidente do fundo de pensão

Dona Ivone Lara todo mundo conhece. Autora de pérolas do samba, primeira compositora a vencer um concurso de samba-enredo, uma artista genial que ralou décadas como enfermeira do hospício do Engenho de Dentro, lotada na terapia ocupacional, o setor que inventava diversão para os internos.

Mulher vigorosa, de uma bondade extrema, perto dos oitenta e cinco anos ela continua sendo um esteio não só da nossa música popular, como também de um monte de gente que depende dela. É o mais velho arrimo de família que conheço! O que será que aquela gente toda vai fazer quando ela faltar?

A vida inteira dependeram de Dona Ivone. No hospício, tinha carta branca da doutora Nise da Silveira para fazer arte com os pacientes. Pois era justamente o que ela fazia: pegava o cavaco e botava os malucos para sambar. Alguns até ficaram bons da cabeça, pois não eram doentes do pé. “Ficaram bonzinhos que só vendo”, disse Dona Ivone, que tem essa mania de terminar algumas frases com a expressão “que só vendo”.

Dona Ivone abriu o baú do Museu do Inconsciente e me contou suas histórias do hospício, uma tarde inteira, na quadra do Império Serrano, sentada no camarote que leva o nome da Tia Eulália. Nesta época, eu era editor do jornal impresso e do site de um fundo de pensão e a entrevistei porque estávamos fazendo o relatório anual da instituição, cujo tema era a terceira idade produtiva. Terceira idade produtiva era com ela mesma, que sustenta tanta gente.

Para encurtar: conversa vai, conversa vem, descobri que um irmão de Dona Ivone, o falecido Waldir José da Silva, havia trabalhado na grande empresa patrocinadora do tal fundo de pensão. Fiquei com aquilo na cabeça e pesquisei no trabalho sobre o moço. Dois dias depois, um atuário me procurou para dizer que havia localizado a ficha.

O Waldir deve ter sido um figuraço. Era solteiro e, ao passar desta para a melhor, deixara várias mulheres que entraram com requerimento de pensão, todas alegando que tinham sido companheiras dele. Nenhuma conseguiu marcar o gol. Isso porque o Waldir fora bem claro em seu pedido de deixar o pecúlio para a única irmã, que o criara como se fosse uma segunda mãe, e somente para ela, para mais ninguém, a Ivone da Silva.

Durante anos a fio, o fundo de pensão procurou a irmã do Waldir e nada. O sobrenome era diferente. Ivone Lara era o nome artístico, bingo!

Pois não é que havia uma bela grana guardada em nome dela? Dona Ivone vibrou. Um dia marcamos para que ela fosse lá receber a bufunfa. Foi uma festa no prédio da Rua do Ouvidor. Irradiando simpatia, a antiga componente do Prazer da Serrinha e veterana integrante da ala das baianas e da ala dos compositores do Império Serrano adentrou o edifício onde funciona o fundo de pensão como se estivesse evoluindo na avenida. Todos queriam tocá-la, beijá-la, pedir autógrafos. Quando me viu, cantou serelepe, ao lado da sempre presente empresária: “Foram me chamar/ Eu estou aqui, que-é-que-há!”.

Passou no guichê e foi comigo e com mais dois assessores de imprensa do fundo de pensão até o gabinete do presidente da entidade, que queria conhecê-la. Ótima pessoa, aquele presidente. Sério, honesto, formal e tímido. Só que, de repente, ficou sem saber o que falar com a grande compositora, e foi então que deitou a discorrer sobre seu time de futebol, o Corinthians. Queria aproximar-se mais daquela pessoa do povo, daquela artista popular... Como nada sabia de samba, engrenou um papo de futebol, assunto que dominava ... menos ainda.

Dona Ivone, por sua vez, diante daquele senhor refinado e boa gente, também perdeu o repertório. Resolveu rememorar uma grande figura que conheceu, o Major Paredes. Não sei por que cargas d´água ela lembrou desse Major Paredes, que só muito tempo depois descobri ter sido um dos jurados que deu o primeiro título de escola de samba campeã ao Império Serrano. “O senhor ia gostar muito do Major Paredes, seu presidente. Era educado que só vendo”...

Ficaram os dois sem assunto – a sambista e o presidente do fundo de pensão.

E o jeito foi um falar do Corinthians, como se tivesse passado a vida inteira numa arquibancada, e a outra tecer elogios a um militar falecido há mais de 50 anos, pessoa que ninguém ali tinha ouvido falar. Não tinha a ver o cós com a calça.

Eu e meus dois colegas nos segurávamos para não cair na gargalhada. Era preciso encerrar logo aquela audiência. Alguém lembrou que estava na hora do almoço e que iríamos comemorar com Dona Ivone e sua empresária num restaurante de comida mineira. O presidente do fundo de pensão não podia ir, por causa de outro compromisso ou porque estava com medo de ficar mais algumas horas sem saber o que dizer. Mas foi aquela menção à comida mineira que salvou a “conversa”.

“Ah, um feijãozinho preto carregado! O senhor gosta, seu presidente?”, tascou Dona Ivone, para fechar com chave de ouro a conversa de maluco.

“Ah, sim, gosto muito! Na minha terra botam um ovo e chamam de virado...”.

A sambista ficou meio sem jeito. Deu para perceber no ato que ela havia entendido outra frase e antes que Dona Ivone perguntasse a qual dos veados o presidente estava se referindo – um ou dois funcionários do fundo de pensão que testemunharam a conversa tinham essa opção sexual -, peguei-a pelo braço e entramos no elevador.

No elevador, Dona Ivone relaxou:

“Que senhor simpático! Vai perder um feijãozinho que só vendo, né mesmo?”.

José Sérgio Rocha

sexta-feira, julho 08, 2005

E a governabilidade matou o gato

Os homens deveriam evoluir. É um princípio intrínseco dos seres vivos, ou, como diria Mauro Duarte, a concepção da vida admite. Eliminar, gradualmente, aspectos que remetem à lama primordial e avançar rumo a esferas mais elevadas é uma lei da natureza, repetida desde que Darwin é Darwin, e, de maneira menos perfeita e exata, desde que certos gregos deram uma pausa nas seções vespertinas de sodomia e se dedicaram a dedicar-se a botar os neurônios para funcionar. Como explicar então que certos organismos, que deveriam ter se libertado da lama comum, retornem a ela após tomarem o gosto pelo ar fresco e puro? A pergunta pode ser aplicada ao Partido dos Trabalhadores, nos dias de hoje.
O PT foi criado, na década de 70, visando ser uma alternativa tanto ao governo ditatorial claramente de direita que então detinha o poder, quanto a uma esquerda histórica calcada em dogmas que pareceram, a alguns pretensamente antenados do momento, como inviável – o que talvez tenha constituído seu maior erro. A partir do viés que pregava que a democracia parecia ser maior que a justiça social, construiu-se um partido moderno, sim, em termos de levar o debate até um grau nunca antes pensado, mas por isto mesmo ineficaz. A partir do momento em que se estabelece como porta-pluralidade-de-vozes, o PT alcançou, a princípio, uma estatura moral e humana que se opunha à do meio político então – claramente contra a idéia de atribuir-se este peso a pensamentos individuais. Resta perguntar: estatura por si mesma se mantém de pé?
Á medida em que se ouve, mais e mais o outro, cai-se no limite de negar-se a própria natureza primordial daquilo que nos move. Quando tudo é relativizado (como em certos tomos antropológicos que tentam até mesmo conferir caráter musical ao funk carioca), pode-se conceder valor a elementos que não o mereceriam, e, a partir daí, criar-se uma forma de pensar que se abstrai de qualquer conceito de absoluto, legitimando as mais impensáveis das coisas em função de uma coexistência humana. A pergunta que resta é: num país em que a grande maioria da população perdeu o controle de – ou desconhece, em absoluto – sua capacidade de discernimento, é correto que se conceba que o poder de decisão pode emanar igualmente de todos dentro de um partido? Ora, um partido não é um povo inteiro: é a reunião de elementos que poderão ou não vir a representar este mesmo povo, contudo não a reunião de elementos quaisquer. Supõe-se que estes elementos estejam devidamente aparelhados, em suas respectivas áreas, para tomar decisões representativas para este mesmo povo – o que é fábula, numa terra em que as pessoas se elegem distribuindo copinhos de mocotó em dia de eleição, como certo deputado de São João de Meriti.
Desta maneira, não se pode nivelar todos os homens. Resta, então, efetuar filtragens no mecanismo do partido, se é que este deseja se manter a margem da lama citada lá no primeiro parágrafo. E deve-se admitir que durante algum tempo o PT realizou uma filtragem razoável. Por que a mudança agora? Os quadros do partido mudaram?
Não, muitos dos envolvidos na atual erupção de lixo são petistas históricos, teoricamente servidores de um povo que os levou, pela primeira vez, às mais altas esferas do poder. E que deveriam agir como se assim o fossem. Mas há a questão da governabilidade.
Julgando-se democrático ao extremo, o PT foi capaz de admitir para si mesmo que assinar com o próprio sangue um pacto com Mefistófeles poderia resultar em algo produtivo e sem ônus morais. Mas os pactos desta natureza só o parecem ser no início, quando advêm as vantagens. O diabo é traiçoeiro, e nunca esquece uma dívida (uma espécie de Credicard metafísico). Por isto, em função da mesma governabilidade, pequenos diabinhos se aglomeraram em torno do PT, se imiscuindo, fazendo parecer que “aquilo não era nada demais” e assemelhados. E o partido que se dizia o mantenedor da probidade acabou por se tornar nada mais nada menos que um partido político brasileiro, como outro qualquer. Uma prova disso é que um dos maiores corruptos que este País já conheceu hoje posa de homem bravo e corajoso, de Grande Denunciador, mesmo tendo admitido que só assumira esta atitude porque, mergulhado como estava na lama, ia acabar sobrando para ele. O roto falando do mal-lavado, com o agravante, para este último, que o mal-lavado deveria, por sua natureza e discurso passado, se manter mais puro que véu de noiva virgem na Sicília.
A governabilidade matou o gato. O mais doloroso para todos nós, que sonhamos em ver este País sob a égide de um governo socialista um dia, é constatar que, no Brasil, não se deve negociar, enquanto não se extirpar, de uma vez por todas, com a abundância de demônios que grassa nas atmosferas do Poder. E que talvez o caminho da não-negociação seja o único possível, por mais doloroso e sangrento que este mesmo possa parecer.

Fernando Toledo

quarta-feira, julho 06, 2005

O que foi sem nunca ter sido

Bem, vou aqui desincumbindo-me do ônus que sobre mim recai às quartas-feiras – ainda que atrasado, devido a problemas com o sistema de postagem do nosso hospedeiro - já que meus companheiros de composição parece que perderam o trem.

Vimos surgir nos últimos dias, depois do mar de lama parecer generalizar-se sobre o partido do presidente, naturalmente ameaçando sempre respingar no governo, e da exacerbação de alguns discursos, vozes respeitáveis virem à público na tentativa de desconstruir a idéia que se dissemina e que de certa forma tenho defendido, segundo a qual o governo Lula em nada se diferencia não só de FHC, mas da tradição dos mandatários nacionais subservientes ao grande capital e aos interesses colonialistas de sempre. Destaco os bons artigos dos professores Flávio Aguiar na Agência Carta Maior e Emir Sader, reproduzido no Portal Vermelho.

Malgrado a qualidade dos argumentos expendidos, acredito que esta visão esteja essencialmente encobrindo uma falácia e uma verdade mais profunda. A falácia é a que tenta colocar na boca dos críticos do governo do PT a idéia de que para o grande capital e os interesses colonialistas (que nem sempre se confundem na prática, como no caso do capital agrário, industrial e comercial brasileiro massacrado pela lógica financista que vem imperando desde a década passada; mas ao que tudo indica as construções ideológicas que aproximam esses setores parece estar falando mais alto até o momento, a despeito das evidências claras que só a retomada da soberania sobre os rumos nacionais e uma conseqüente política desenvolvimentista de expansão de mercado interno podem salvar o capital nacional) seja indiferente que esteja no poder Lula, de um lado, ou, de outro, FHC, Malan, Delfim, Alckimin etc. Não precisa ter capacidade reflexiva privilegiada pra se notar a estultice óbvia que essa idéia enseja. Porque nós exercermos o poder é sempre diferente deles o fazerem, por qualquer dos lados que se olhe. Mas, no fundo, não passa muito disso, numa versão globalizada, pra ficar na moda, daquela definição outrora corrente: ditadura é quando eles mandam em nós; democracia é quando nós mandamos neles...

Nesse sentido, pois, importa admitir como inconteste que Lula não é “nosso” em nenhum sentido, para os donos do poder históricos. Não é de família tradicional, não faz parte da elite intelectual acadêmica, não vem dos setores do capital e nem sequer enriqueceu trabalhando. Então, sob a ótica da Casa Grande, para usar a denominação do professor Aguiar, quem está no Palácio do Planalto é “deles” e obviamente melhor seria para perpetrarem os seus desmandos seriais em proveito próprio que lá estivesse um “nosso”. Negar isso seria negar o jogo político que ainda contrapõe o PSDB e o PT, que de outra forma reunir-se-iam definitivamente para a pilhagem nacional, como já dissemos por aqui. Ao mesmo tempo, também não se ousa mais negar que a política econômica agrada religiosamente, até as minúcias, os interesses da tal Casa Grande.

Pois a verdade profunda que ora também se enconbre, como também amiúde temos defendido ( A verdadeira herança maldita ou da morte da política, de 11/05/2004), é que o período FHC conseguiu implantar perversamente a semente de uma lógica gerencial financista indepentente que se perpetua a despeito do exercente formal do poder. Dizia eu, na ocasião: “Isso nos conduz à triste conclusão de que a verdadeira herança maldita deixada pela era tucana não se resume à exponenciação da dívida pública, ao aniquilamento do parque industrial nacional, à completa estagnação econômica e à dilapidação do patrimônio estatal. O legado fatídico é a perpetuação de uma lógica financista auto-referente e auto-suficiente que, mais do que desprezar, faz prescindir-se da política como arte dos cidadão de uma polis disputarem os rumos da coletividade e negociarem a tomada de decisões. A lógica contábil dos superávits (que obviamente é não mais que a máscara ideológica para o verdadeiro substrato consistente na intangenciabilidade da obrigação de honra aos compromissos formais com os credores) governa os destinos do estado brasileiro como um andróide insensível pré-programado para exercer a sua sanha exterminadora, rebelado e incontrolável ... O imobilismo de um governo que incorpora setores altamente representativos da esquerda brasileira, sua quase patética incapacidade de desmontar as armadilhas mais simplórias do modelo financista, mostram-nos o quanto precisamos urgentemente ressuscitar a política como forma de controle do estado pelos cidadãos.”

Lula não conseguiu desenredar-se desta teia maliciosa construída habilmente para manter as estruturas fundamentais da lógica macro-econômica. Ainda que, como admitido na famosa Carta aos Brasileiros, marco da rendição política do PT ao núcleo cancerígeno que destrói o país, preservássemos os contratos, ainda que a honra aos compromissos financeiros seguisse estrangulando orçamentos e margens de manobra, o eleitorado que votou em Lula esperava que dentro dessa margem estreita se invertessem substancialmente as práticas políticas e os objetivos primários da ação estatal no Brasil. Esse foi o sinal que foi negado à nação e que legitimaria ainda mais o pleito por um segundo mandato: a ação de um líder popular que, valendo-se de seu apoio, denunciasse publicamente as tentativas espúrias de se trancar as ações governamentais, as chantagens políticas, as negociatas por cargos e todo o lodaçal que vem à tona agora como nunca. Mas foi nessa hora, precisamente, na hora em que o Brasil confiou em seu líder, que Lula foi menor do que esperávamos dele, entregando o comando das ações políticas ao PT burocrático, capitaneado pela mente autoritária, arrogante e bem pouco escrupulosa (ainda que bem intencionada, sigo acreditando nisso) do ex-ministro José Dirceu.

É nesse ponto que se evidencia a contradição do discurso do eminente professor Sader, que é fundamentalmente a mesma da orientação do meu partido, com a vênia devida. Qual o sentido de se fazer a defesa intransigente de Lula apontando a necessidade urgente da retomada do comando do curso político e da inversão da lógica da política econômica? O sistema econômico presentemente vigente foi concebido para “quem quer que seja o presidente do país, nada muda, nem mudará”... “no conteúdo das políticas”, na letra do citado articulista, mas foi o PT, sim senhor, que tratou de atestar que essa continuidade se estenderia incólume sobre o “ manejo nada ético do governo e de suas alianças”. E o que fez Lula diante de tudo isso? Nada. Sua liderança é inexistente, o peso do seu cargo e de sua história pessoal não se fazem sentir em nenhum momento no deslinde das ações no teatro político. A patética reforma ministerial patina, por isso, há bem mais de seis meses, e chegam a despertar piedade as demonstrações de inabilidade, as trapalhadas, sob o olhar atônito e “triste” do presidente que nem mais parece querer ser candidato, como assinala Clóvis Rossi na Folha de ontem.

O resumo da ópera é que por mais que se peçam votos de confiança pessoal a este homem honrado chamado Luiz Inácio da Silva, o fato é que nenhum argumento racional dá conta de que terá ele condições de chamar a si a responsabilidade por uma virada política respaldada no seu prestígio, na sua liderança, que teria que corresponder necessariamente a um contraponto ao poder absoluto do fiscalismo cego e subserviente operado por Palocci, o empalador. É o próprio Sader que estampa a tibieza de suas esperanças: “Se quiser romper o cerco de que está sendo vítima, o governo precisa movimentar-se, retomando a iniciativa e deslocando a atual situação. O problema é que pensa movimentar-se rodopiando no mesmo lugar, obtendo uma sobrevivência imediata aliando-se ao PMDB, mas sob o risco de não conseguir derrotar a ofensiva de denúncias.” Ou seja, mais uma vez, acuado, intimidado, o presidente furta-se a fazer o que dele se espera e opta pela saída mais fácil, prendedo-se mais e mais a setores fisiológicos espúrios que não estão minimamente comprometidos com as esperanças de transformação e justiça que o Brasil anseia.

Acompanhando, pois, o raciocínio sugerido por Janio de Freitas ontem na mesma Folha: o presidente, a esta altura do campeonato, é sem dúvida diretamente responsável pela crise. Infelizmente, tenho que admitir o que passei a vida negando, desdobrando-me em argumentos, contendas e brigas até as raias das vias de fato: Lula
não está a altura da liderança política que dele se espera e da confiança que nele depositou o povo, não para resolver os problemas todos do Brasil, mas oferecer um mínimo contraponto à história de apropriação privada do estado e sua instrumentalização para a perpetuação das formas de opressão, desigualdade e acumulação. Infelizmente, senhores, Lula mostrou-se um fraco. É um homem honrado, de bem, comprometido até, eu diria, com os anseios da maioria oprimida da nação. Mas não vai mudar a política econômica, nem vai quebrar os ovos, professor Emir. Lula não é Vargas.

Mas se o presidente Lula, apesar de jogar do lado que certamente não é o “deles”, não é o homem a conduzir o Brasil a um avanço, mínimo que seja, na assunção de uma postura independente e soberana cada vez mais rara entre os colonizados, mister empunhemos, uma vez mais, as idéias e as armas todas que dispusermos para a reconstrução de um caminho que recoloque a política como instrumento de condução dos destinos da nação, que corte os grilhões que nos aferram a um modelo sugador de nosso sangue, de nossas riquezas, energias, esperanças e dignidade. Lamento profundamente ver os comunistas agarrados a uma náufraga esperança, à liderança não consumada de Lula, em vez de erguendo a bandeira de uma nova alternativa democrática que recomponha o status do enfrentamento político como resistência a esta financismo auto-referente.

Não, senhores, a recusa de Lula e da inépcia política petista não significa em absoluto rendição ao projeto de poder prefigurado exemplarmente na ambição tucana da retomada do Palácio do Planalto. Afirmar esta equivalência significa aceitar a incolumidade dos ultra-contemporâneos mecanismos de expoliação financeira a qualquer ação política, o que significa estarmos para sempre condenados a meros expectadores dessa pantomima monstruosa cujo cenário vai sendo composto por nossos próprios cadáveres.

Fernando Szegeri
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