segunda-feira, julho 11, 2005

Dona Ivone e o presidente do fundo de pensão

Dona Ivone Lara todo mundo conhece. Autora de pérolas do samba, primeira compositora a vencer um concurso de samba-enredo, uma artista genial que ralou décadas como enfermeira do hospício do Engenho de Dentro, lotada na terapia ocupacional, o setor que inventava diversão para os internos.

Mulher vigorosa, de uma bondade extrema, perto dos oitenta e cinco anos ela continua sendo um esteio não só da nossa música popular, como também de um monte de gente que depende dela. É o mais velho arrimo de família que conheço! O que será que aquela gente toda vai fazer quando ela faltar?

A vida inteira dependeram de Dona Ivone. No hospício, tinha carta branca da doutora Nise da Silveira para fazer arte com os pacientes. Pois era justamente o que ela fazia: pegava o cavaco e botava os malucos para sambar. Alguns até ficaram bons da cabeça, pois não eram doentes do pé. “Ficaram bonzinhos que só vendo”, disse Dona Ivone, que tem essa mania de terminar algumas frases com a expressão “que só vendo”.

Dona Ivone abriu o baú do Museu do Inconsciente e me contou suas histórias do hospício, uma tarde inteira, na quadra do Império Serrano, sentada no camarote que leva o nome da Tia Eulália. Nesta época, eu era editor do jornal impresso e do site de um fundo de pensão e a entrevistei porque estávamos fazendo o relatório anual da instituição, cujo tema era a terceira idade produtiva. Terceira idade produtiva era com ela mesma, que sustenta tanta gente.

Para encurtar: conversa vai, conversa vem, descobri que um irmão de Dona Ivone, o falecido Waldir José da Silva, havia trabalhado na grande empresa patrocinadora do tal fundo de pensão. Fiquei com aquilo na cabeça e pesquisei no trabalho sobre o moço. Dois dias depois, um atuário me procurou para dizer que havia localizado a ficha.

O Waldir deve ter sido um figuraço. Era solteiro e, ao passar desta para a melhor, deixara várias mulheres que entraram com requerimento de pensão, todas alegando que tinham sido companheiras dele. Nenhuma conseguiu marcar o gol. Isso porque o Waldir fora bem claro em seu pedido de deixar o pecúlio para a única irmã, que o criara como se fosse uma segunda mãe, e somente para ela, para mais ninguém, a Ivone da Silva.

Durante anos a fio, o fundo de pensão procurou a irmã do Waldir e nada. O sobrenome era diferente. Ivone Lara era o nome artístico, bingo!

Pois não é que havia uma bela grana guardada em nome dela? Dona Ivone vibrou. Um dia marcamos para que ela fosse lá receber a bufunfa. Foi uma festa no prédio da Rua do Ouvidor. Irradiando simpatia, a antiga componente do Prazer da Serrinha e veterana integrante da ala das baianas e da ala dos compositores do Império Serrano adentrou o edifício onde funciona o fundo de pensão como se estivesse evoluindo na avenida. Todos queriam tocá-la, beijá-la, pedir autógrafos. Quando me viu, cantou serelepe, ao lado da sempre presente empresária: “Foram me chamar/ Eu estou aqui, que-é-que-há!”.

Passou no guichê e foi comigo e com mais dois assessores de imprensa do fundo de pensão até o gabinete do presidente da entidade, que queria conhecê-la. Ótima pessoa, aquele presidente. Sério, honesto, formal e tímido. Só que, de repente, ficou sem saber o que falar com a grande compositora, e foi então que deitou a discorrer sobre seu time de futebol, o Corinthians. Queria aproximar-se mais daquela pessoa do povo, daquela artista popular... Como nada sabia de samba, engrenou um papo de futebol, assunto que dominava ... menos ainda.

Dona Ivone, por sua vez, diante daquele senhor refinado e boa gente, também perdeu o repertório. Resolveu rememorar uma grande figura que conheceu, o Major Paredes. Não sei por que cargas d´água ela lembrou desse Major Paredes, que só muito tempo depois descobri ter sido um dos jurados que deu o primeiro título de escola de samba campeã ao Império Serrano. “O senhor ia gostar muito do Major Paredes, seu presidente. Era educado que só vendo”...

Ficaram os dois sem assunto – a sambista e o presidente do fundo de pensão.

E o jeito foi um falar do Corinthians, como se tivesse passado a vida inteira numa arquibancada, e a outra tecer elogios a um militar falecido há mais de 50 anos, pessoa que ninguém ali tinha ouvido falar. Não tinha a ver o cós com a calça.

Eu e meus dois colegas nos segurávamos para não cair na gargalhada. Era preciso encerrar logo aquela audiência. Alguém lembrou que estava na hora do almoço e que iríamos comemorar com Dona Ivone e sua empresária num restaurante de comida mineira. O presidente do fundo de pensão não podia ir, por causa de outro compromisso ou porque estava com medo de ficar mais algumas horas sem saber o que dizer. Mas foi aquela menção à comida mineira que salvou a “conversa”.

“Ah, um feijãozinho preto carregado! O senhor gosta, seu presidente?”, tascou Dona Ivone, para fechar com chave de ouro a conversa de maluco.

“Ah, sim, gosto muito! Na minha terra botam um ovo e chamam de virado...”.

A sambista ficou meio sem jeito. Deu para perceber no ato que ela havia entendido outra frase e antes que Dona Ivone perguntasse a qual dos veados o presidente estava se referindo – um ou dois funcionários do fundo de pensão que testemunharam a conversa tinham essa opção sexual -, peguei-a pelo braço e entramos no elevador.

No elevador, Dona Ivone relaxou:

“Que senhor simpático! Vai perder um feijãozinho que só vendo, né mesmo?”.

José Sérgio Rocha

7 Comments:

Anonymous Marcelo Maiolino said...

Como sempre, os textos do José Sérgio - meu quase primo - são excelentes.

12/7/05 11:53  
Anonymous Betinha said...

Adorei, Zé! Ótima história, do começo ao fim.

13/7/05 15:25  
Blogger Szegeri said...

O Zé, também, tem mais primo que o Nei Lopes...

14/7/05 14:59  
Anonymous zé sergio said...

Legal, Betinha e Marcelo. Szegeri, não chego aos pés do Mestre. Dizem que Deus criou o céu no primeiro dia, a terra no segundo, o mar no terceiro, as plantas no quarto dia, as flores no quinto e os primos do Nei Lopes no sexto dia.

14/7/05 17:40  
Anonymous Flávio said...

Fico impressionado com a capacidade do Zé Sérgio de narrar eventos que me soam familiares. As figuras são sempre muito humanas e transparece o carinho que ele nutre por elas.

15/7/05 10:28  
Anonymous zé sergio said...

Valeu, Flavinho!

17/7/05 11:21  
Anonymous Anônimo said...

Não adiantava tentar explicar nada. Aquele dia, aqueles pequenos minutos de angústia parecem que ocorreram ontem. Um ontem que sempre se repete, a cada dia. Sempre parece que foi ontem, independente do dia, do ano em que estamos. Grande Zé se posso dizer assim.
João

22/7/05 04:39  

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