quarta-feira, julho 13, 2005

O eu profundo e os outros eus

Pois não é que o nobre Toledo em boa hora começa a colocar o dedo em feridas mais profundas e questiona os fundamentos da nossa democracia, valor quase religioso no nosso ocidente pseudo-pós-moderno? Vamos por hoje a um pouco de filosofia, então.

Um eminente professor-pensador de insuspeita competência e respeitabilidade intelectual há muitos anos gostava de usar um exemplo caricato para questionar esses absolutismos valorativos normalmente impensados, aos quais alguns bons companheiros de jornada tanto gostam de abraçar-se. Por ocasião de pleitos estudantis pueris por paridade indiscriminada em todas as instâncias decisórias da Universidade, o professor indagava: imaginem se, num hospital, resolverem pleitear a paridade entre doentes, funcionários e médicos para todas as decisões coletivas, inclusive às atinente à padronização de procedimentos? Pois é isso. Na verdade, a história vai mostrando que a democracia só é pensável mesmo enquanto valor para a gerência do estado. E mesmo assim, nem por falta de inventarem algo melhor, como quer o bom Zé Sérgio, mas algo que tenha menos defeitos. Simplesmente é isso: a democracia é, das formas de gestão desse leviatã que criamos e que temos que dar conta, não mais do que a menos pior. E por um motivo bem simples, herdado do liberalismo pós-iluminista da qual é filha direta: é o sistema que mais diretamente valoriza o indivíduo como realidade fundamental, a ser respeitado em sua existência física, social e política. Por isso, só nas democracias tem sentido falar em direitos fundamentais.

Mas não posso fazer coro com meu companheiro das sextas-feiras quando diz que o ouvir o outro só traz a perda de si mesmo. Pelo contrário, desde Platão, ainda que acreditasse que as formas puras e ideais da verdade preexistissem aos indivíduos, essa só era atingível pelo exercício do diálogo, que visava depurar as imperfeições da linguagem. Creio ainda, depois de 25 séculos, que o exercício do diálogo seja a única forma que permita que construamos uma razão despojada do totalitarismo que caracterizou-a desde a modernidade. Ir ao outro jamais representará o despojamento dos meus próprios sentimentos, valores e convicções, mas submetê-lo ao necessário juízo de validade e plausibilidade (vale dizer, de razoabilidade) é a única coisa que pode nos apartar dos barbarismos totalitaristas que os séculos têm assistido.

Isso não quer dizer, obviamente, que se possa prescindir de algumas diretrizes da razão universal, que é justamente a que brota de uma possibilidade de consciência humana tão ampla quanto possível acerca de algumas validades fundamentais. Sem isso, simplesmente fenece a idéia, por exemplo, de direitos humanos. Da mesma forma, não pode o indivíduo abrir mão de um mínimo de idealismo, sem o qual ele não terá a capacidade de engendrar a idéia de uma realidade diferente da dada, conseqüentemente estando forçado a abdicar de qualquer interferência transformadora sobre a realidade. Da intersecção desse idealismo desejável com a necessária validação pelo diálogo é que se constrói o jogo político, pois a gestão da coisa pública passa por instâncias de intermediação que componham os diferentes idealismos, submetendo-os ao “teste” dialógico de razoabilidade.

Assim como os indivíduos, as instâncias políticas não podem abdicar desse grau de idealismo político apriorístico, vale dizer, não podem abdicar de ter um programa, de teses, de soluções próprias, diretrizes etc., ainda que a implementação desses tenha que ser dialogada permanentemente com as demais forças políticas que componham o quadro social. A idéia de uma democracia direta total a que levam, no limite, certas concepções de participação da sociedade civil na gestão pública, esbarra nesse óbice, portanto. Se estivermos sempre subordinados às razões particulares envolvidas na resolução de um determinado problema, na circunscrição de uma determinada questão, perde-se a possibilidade que a partir de uma instância dirigente mais universal possa-se implementar vetores de transformação social dirigidos a objetivos socialmente desejados. Ou seja, a existência da instituição política formal visa unicamente assegurar que, ao largo dos interesses particulares envolvidos em questões específicas, faça-se valer uma vontade mais geral orientadora da ação governativa, em busca do modelo social cuja representação é mais disseminada entre a maioria dos indivíduos, com os valores e representações mais universais.

É, portanto, muito bonito achar que as instâncias da sociedade civil possam deter o controle de todas as esferas das decisões públicas, mas salta aos olhos a ingenuidade da tese “democracia primeiro, justiça social depois”. Porque, como dito, essa democracia “direta” é particularista e não dá conta da composição de uma razão mais universal que tenha a capacidade de estabelecer diretrizes de intervenção na realidade rumo a um objetivo reconhecido comumente. Ademais, pressupõe uma capacidade ociosa de racionalidade dialógica disseminada nas instâncias sociais, desconsiderando que também nelas – e não só nas estruturas limitadas e defeituosas da democracia formal - os tentáculos da reificação quebra as possibilidades de um diálogo eficaz para o solucionamento de problemas, mesmo os particulares. Esses tentáculos há muito já abandonaram as esferas das relações mediatizadas pela política (poder) ou pela economia (dinheiro), para atingir as esferas mais particulares, da vida privada. Então, o problema do funcionamento do sistema democrático não estão circunscritas ao sistema em si, os seus limites e as suas contradições estruturais, como quer o Marcão.

Então, nobre Toledo, temo que você esteja confundindo “galhos com bugalhos”, como diria aquele conhecido dirigente corinthiano. Que o sistema democrático tenha limitações é necessário se admitir, por força de que não se pode ter uma homogeneidade completa de valores e representações, de modo que o diálogo e a participação direta e eqüitativa de todos os indivíduos seja capaz de gerir todas as esferas da vida social. Há que haver, portanto, um corpo diretivo institucionalizado a ser ocupado por um grupo de indivíduos que portem um conjunto de valores, representações e ideários programáticos que pareça ao conjunto dos indivíduos, capazes de implementação daqueles valores reconhecidos como os mais universais. Essa função diretiva geral, direcionada para a garantia da segurança e subsistência do corpo social, será pois exercida pelo poder político mediado democraticamente, como garantia da preservação dos indivíduos e de seus valores mais universais. Já as esferas de gestão mais particulares, podem estar subordinadas a instâncias decisórias menos formalizadas, desde que as condições mínimas de exercício dialógico estejam preservadas.

Como corolário, o que eu imagino como utopia a ser posta como orientadora de nossa ação política é um sistema político formalizado contido aos limites estritos das necessidades que temos dele, com as outras esferas da vida social mediatizadas por uma racionalidade inclusiva e com o mínimos de instrumentalização formal. Isso passa por duas vias de ação: internamente ao sistema, no sentido de apropriação dos meios de poder e meios econômicos para o serviço da coletividade, para o banimento das desigualdades e provimento das necessidades materiais de todos os seres humanos, o que significa o fim do capitalismo. Num segundo passo, no sentido radicalmente oposto ao que foi feito por todos os sistemas socialistas, o confinamento dos sistemas aos seus limites, a desregulamentação formal da vida social, para que as comunidades possam respirar e retomar o desenvolvimento de uma racionalidade coletiva que dê conta dos processos decisórios, das normas de convivência etc.

Não se tem certeza de que essas comunidades conseguirão. Há uma aposta no valor intrínseco de uma racionalidade compartilhada, mas não se tem garantia de suas possibilidades de funcionalidade, seja pela incógnita relativamente à perspectiva de recuperação das estruturas reificadas do mundo da vida privada, seja pelos próprios limites naturais dessa nova racionalidade, que não pode ser completamente abrangente, haja vista os processos que refogem à própria idéia de racionalidade.
Fernando Szegeri

7 Comments:

Anonymous zé sergio said...

Fernando, honestamente, com toda a cara de biriteiro conversa fiada que tenho, passei décadas da minha vida refletindo sobre como seria substituir a tal de democracia por outro tipo de regime. Uma quase democracia forte e nacionalista que nos tirasse do atraso, o anarquismo das origens, a ditadura do proletariado, aquela conversalhada toda do tempo em que ainda se falava em terceira via (lembram?) que até hoje não sei o que é. O que aconteceu, com o passar dos tempos, foi que fui perdendo cada vez mais a confiança na nossa raça. O ser humano é ótimo em sua individualidade. Não sei quem disse que o brasileiro, por exemplo, pára de odiar ou de ter reservas em relação a alguém quando conhece a pessoa. Já reparou nisso? Cansamos de não ir com a cara de alguém gratuitamente até conhecer a pessoa e gostar, passar por cima de diferenças ideológicas, e por aí vai o bonde. O humano é uma beleza, mas quando se junta e forma uma patota - a não ser que essa patota tenha objetivos lúdicos - sai da frente que evém asnice. Às vezes, o homem emburrece quando forma um grupo, e isso cansei de ver em diretório acadêmico, em sindicato e em partido político. O ego relincha mais alto e aquele sentimento bonito que movia o humano, aquela busca de algo melhor para todos, acaba dando em nada. O tempo vai passando, mais uma brahma, mais um conhaque, um belo de um enfarte e pimba! Acabou a brincadeira. Entra então em cena uma nova geração para fazer as mesmíssimas coisas, ainda que não isso não pareça estar se repetindo. Somos uma canção de Belchior, mais nada.

14/7/05 17:36  
Anonymous zé sergio said...

E falhos do jeito que somos, que sempre fomos, porém indivíduos até certo ponto interessantes, não vejo outro sistema melhor do que essa falha democraciazinha, com todos os defeitos que tem. Evidente que se quer, mais do que tudo, justiça social. Só que não vejo essa tal de justiça social surgir em outro ambiente que não o do ar fresco dessa democracia ocidentalzinha de merda que temos (já pensou se o Islã ganhar a terceira guerra mundial?). Tudo bem, existe Cuba, que não é democracia, mas tem o mínimo de justiça social. Cuba é uma ditadura tropical, mais tropical do que ditadura, e um país pequenininho. Por isso, lá foi possível existir justiça social num nível bem mais alto do que o do resto do continente, mesmo não sendo uma democracia. Aqui nesse Brasilzão, duvido!

14/7/05 17:47  
Anonymous Marcão said...

Insisto em achar que, nos tempos atuais, a participação da sociedade civil é fundamental, não para substituir os partidos políticos, não para ocupar o espaço das utopias "mais universais", como diz o Fernando (é preciso mesmo saber que espaço há para isso hoje em dia, mas essa é outra discussão) mas, na medida em que aquele que não disputa o poder entra no debate público de questões públicas (não falo em "particularismo", porque entendo não ser o caso, muito embora, às vezes, se trate de problemas públicos concretos e específicos, embora nem sempre a participação esteja configurada dessa forma), ou melhor, na medida em que a questão pública é posta acima da disputa pelo poder, ou ainda, na medida em que políticas públicas e questões de interesse coletivo são discutidas com mais seriedade e profundidade, sem marketing barato e sem a superficialidade que costuma dominar os partidos políticos, é inegável que diminui o espaço entre o poder público e o cidadão e é inegável que a democracia se aprofunda e se aperfeiçoa o que, não vejo como discordar, ajuda no encaminhamento dos problemas sociais, muito embora, evidentemente, democracia não seja uma panacéia para todos os males, especialmente os gravíssimos sociais.

Mas será que dá para melhorar a vida dos favelados sem políticas da quais participem os favelados? Dá para melhorar uma escola pública sem a participação dos usuários daquela escola pública? Pode-se achar solução para problemas como esse em livros? Dá para saber o que é melhor para a população sem sair dos gabinetes com ar condicionado? Creio eu que não.

Não se trata, portanto, do que vem antes e do que vem depois, posto que ninguém defederia a esdrúxula tese de que os problemas sociais devem esperar. Mas que reivindicações sociais, que devem ser formuladas sempre, seriam mais eficientes num ambiente de mais e melhor democracia, isso seria.

Pode até ser que isso (participação popular) seja insuficiente, que não dê conta do "problema da democracia", mas é uma contribuição enorme e não faltam experiências concretas sobre isso, das quais a mais relevante talvez seja a do orçamento participativo que, dentre outros benefícios, mostrou-se mais eficiente no atendimento das carências da população do que soluções prontas e acabadas vindas de marqueteiros, políticos, secretários, prefeitos e oposicionistas que só pensam em conquistar o poder e nele se perpetuarem.

14/7/05 18:54  
Blogger drink life in said...

drink life in with Zija www.drinklifein.com

14/7/05 19:23  
Blogger Szegeri said...

Boas ponderações, meu caro Marcão. Como sempre, no salutar embate das idéias, diferentemente do que quer o nobre Toledão, vamos aperfeiçoando nosssos discursos rumo ao que almejamos em comum, estou certo, muito embora com diagnósticos por vezes diferentes e respectivos "remédios".

15/7/05 18:41  
Anonymous Anônimo said...

A pedido não do editor, mais não do redator ...
Democracia. Pequenas imagens da historia em seqüência. Mas podem ser dos anglo-saxônios, asiáticos e até africanos apenas. Porque não do Brasil? Mais de Vinte séculos em apenas uns momentos, ou, já fizeram isso em épocas passadas, apenas dezesseis. Brasil desde 1500. Projeta-se uma luz através das palavras. Projeta-se, junto, detalhes tão pequenos numa tela enorme. Tribos indígenas: africanas, amarelas, americanas, arábicas, asiáticas, sul-americanas e enfim todas as tribos primitivas ou não.. Muito embora não possamos deixar de reconhecer a existência de algumas controvérsias, é fato que modernamente, independentemente de outros fatores, A primeira causa de agregação de uns homens a outros é menos a sua debilidade do que um certo instinto de sociabilidade em todos inatos, onde quer que se observe o homem, seja qual for à época, mesmo nas mais remotas a que se possa volver, o homem sempre é encontrado em estado de convivência e combinação com os outros, por mais rude e selvagem que possa ser na sua origem. o homem é induzido fundamentalmente por uma necessidade natural, porque se associar com os outros seres humanos é para ele condição essencial de vida. Em suma, só na convivência e com a cooperação dos semelhantes o homem pode beneficiar-se dos conhecimentos e da experiência dos outros, obtendo assim os meios necessários para que pudesse sobreviver e atingir os fins de sua existência.
Ai! Pensei e reli. TodoS!!! Ta assim Zé Sergio e então:
15 de agosto de 1876 – historia de quinze dias. Machado bruxo de Assis!
E por falar neste animal, publicou-se há dias o recenseamento do Império, do qual se colige que 70% da nossa população não sabem ler.
Gosto dos algarismos, porque não são de meias medidas nem de metáforas. Eles dizem as coisas pelo seu nome, às vezes um nome feio, mas não havendo outro, não o escolhem. São sinceros, francos, ingênuos. As letras fizeram-se para frases; o algarismo não tem frases, nem retórica.
Assim, por exemplo, um homem, o leitor ou eu, querendo falar do nosso país, dirá:
- Quando uma Constituição livre pôs nas mãos de um povo o seu destino. força é que este povo caminhe para o futuro com as bandeiras do progresso desfraldadas. A soberania nacional reside nas Câmaras; as Câmaras são a representação nacional. A opinião pública deste país é o magistrado último, o supremo tribunal dos homens e das coisas. Peço à nação que decida entre mim e o Sr. Fidélis Teles de Meireles Queles; ela possui nas mãos o direito a todos superiores a todos os direitos.
A isto responderá o algarismo com a maior simplicidade:
- A nação não sabe ler. Há só 30% dos indivíduos residentes neste país que podem ler; desses uns 9% não lêem letra de mão. 70% jazem em profunda ignorância. Não saber ler é ignorar o Sr. Meireles Queles; é não saber o que ele vale, o que ele pensa o que ele quer; nem se realmente pode querer ou pensar. 70% dos cidadãos votam do mesmo modo que respiram: sem saber porque nem o quê. Votam como vão à festa da Penha, - por divertimento. A Constituição é para eles uma coisa inteiramente desconhecida. Estão prontos para tudo: uma revolução ou um golpe de Estado.
Replico eu:
- Mas, Sr. Algarismo, creio que as instituições...
- As instituições existem, mas por e para 30% dos cidadãos. Proponho uma reforma no estilo político. Não se deve dizer: "consultar a nação, representantes da nação, os poderes da nação"; mas ¾ "consultar os 30%, representantes dos 30%, poderes dos 30%". A opinião pública é uma metáfora sem base; há só a opinião dos 30%. Um deputado que disser na Câmara: "Sr. Presidente, falo deste modo porque os 30% nos ouvem..." dirá uma coisa extremamente sensata.
E eu não sei que se possa dizer ao algarismo, se ele falar desse modo, porque nós não temos base segura para os nossos discursos e ele tem o recenseamento.

Mais uma semana rolou e eu na amarga da conversa fatal. Na semana seguinte, o inevitável apareceu.
As razões – se é que há razão nesses casos – pelas quais sonhei, por elas ainda são grandes motivos porque eu ainda carrego um deles dentro de mim. Lembro de mim, ainda pequeno, na portaria do meu Rio de janeiro -o Pedro ll - esperando o Brasil passar. Queria ver aquele Brasil magrinho, faminto, extremamente dividido, moreno de um nego azulão, de olhos amarelos, juntos um moreno português, meio índio e árabe, que quase sempre via e vivia de volta para casa depois do colégio. Do Caporal Amarelinho ao Capri. Parecia sempre assustador, ou atrasado correndo atrás de uma pipa imaginária, que quase sempre caia na Casa da Mãe Pobre. Eu sempre acompanhei sua vida, como capítulo de uma historia sem fim e acreditava que o Brasil me ignorava. Hoje sei que o Brasil sabia da minha existência. Não me perguntem o motivo do Brasil me tratar dessa maneira. Esse nosso código de conduta era algo não verbal. Assinei esse contrato sem ler as cláusulas, apenas para poder viver ou sobreviver com ele. Pensava que, com o passar do tempo, iríamos nos aproximar cada vez mais, pois seriamos mais como eu, a ponto do Brasil admitir na frente de outras pessoas o seu real envolvimento comigo. Acreditava nisso e estava razoavelmente incorreto. Razoável porque com o passar do tempo foi distanciando dele, o Brasil realmente começou a se transformar numa paisagem morta para mim. O problema foi que, após os anos que passamos juntos, onde eu percebia que o Brasil tinha se envolvido comigo de maneira intensa, impulsiva, sem culpas, ressentimentos, ou qualquer sentimento negativo, o Brasil ficou sozinho de uma noite para outra noite e desencantou o meu povo. Passaram as noites inteiras e os dias, no final, o Brasil não me admitiu minha cara, ele não fez a ordem e progresso para sua gente.
Por mais que seja inacreditável, estava disposto a passar por cima disso, se o primeiro parágrafo fosse só uma introdução. Porém as coisas não aconteceram dessa maneira práticas. Foi o estopim para com 2 e o 3, se Tôo-to revisasse a maneira como ele estava levando o papo naquele momento. Isso queria dizer, basicamente, a relação. Eles todos escrevem e nos lemos. Acredito que esse tenha sido o motivo único.
E, de todos os constrangimentos que a individualidade me proporcionou, nenhum se comparou ao que eu passei logo após o fatídico dia que nasci no encontrou do mundo. Isso aconteceu na quinta, no sábado já era o dia de São João, e no domingo haveria uma cabritada para comemorarmos.
Termino quando ficar sóbrio.
João

22/7/05 04:25  
Anonymous Anônimo said...

Cresce toda a democracia brasileira que é pequena dentro da película. Na tela branca, dentro de uma sala, as imagens, todas as imagens que a película pequena contém, ficam grandes, as peles diferentes. Queima-se o filme com o negro e com o índio projetado na tela branco. Começou calado, mudo, começou apenas retratando cenas do cotidiano, o povo, a corte começou de maneira aristocrata. Descobriram que poderiam produzir ficções da realidade e logo o fizeram. Perceberam que era possível enganar o tempo, o homem e adivinhou uma grande arma contra esse povo. Assim, mostra-se apenas a minoria na imagem branca que na película pequena ficou uma caricatura francesa e por extensão uma velha cultura continental . Alguém, algum dia, percebeu que nenhuma outra forma do regime democrático, historicamente ou apenas cria realidades diferentes, era tão impressiva quanto à academia brasileira de letras ou o império até a constituição nacional. Foi e o é uns do teatro cinematográfico ,sem platéia popular. Único formato que é conjunto, onde é praticamente impossível criar sozinho. Praticamente, apenas existe. Criou-se como um fenômeno social e os vínculos sociais, derivado para uma identidade. Porém, hoje, como também ocorreu com a identidade, e quase tudo o que nos rodeia, sofre – talvez haja alguma palavra melhor – influência direta dos meios aristocráticos e coloniais. Ai entra uma avaliação do que o Bruxo do Cosme Velho falou em 15 de agosto de 1876, a política brasileira falava e agia para aproximadamente 21% do “povo brasileiro”. Agora, é natural que o homem, desejoso de viver em comunidade, procure estabelecer associações a partir de algum tipo de identidade para com os seus semelhantes, para usar uma expressão na moda. Movimento da arte moderna, foi uma copia, Samba e Choro, é original. Entretanto, é válido ressaltar, o conceito original ainda é o mesmo. Ou talvez não. Talvez todos os conceitos caíram, mas aí é outro tipo de conversa. Voltemos. Esta identidade natural que o compele a aproximar-se de outros é estabelecida inicialmente através da observação quanto à presença de vínculos comuns, tais como a identidade racial (diferentes índios, a mistura que chamamos português, negros de diferentes tribos, vínculo mais imediato, em face de sua própria evidência, posto que independe de uma mínima convivência – nunca existiu: sendo o índio e o negro justamente a maioria – ou existira?) e, de uma forma mais complexa, dada à necessidade de estabelecimento de uma mínima convivência, as identidades lingüísticas (porra até hoje os dialetos dos índios, africanos e os portugueses não estão bem definidos), religiosas (ou de crença no sentido amplo, o que inclui eventualmente o próprio índio,o africanismo e o português), etc.
Democracia. Arte da... razão brasileira? Parágrafos do texto Fernando: “Templos, templos, templos. - Quando se retira de um membro do povo toda e qualquer consciência de que faz parte de um todo, o indivíduo em questão passa a considerar-se apenas isto: indivíduo, em contraposição ao que deveria ser, em última instância: um ser humano. Pois o homem nunca é apenas ele, um compartimento estanque, e sim membro de uma coletividade, parte atuante da mesma, na medida em que cada um de seus atos influencia o seu estrato, mesmo que a nível infinitesimal. Seremos todos infinitesimais para todo o sempre, se assumirmos a idéia de que não passamos de indivíduos. Desta forma, se a nós mesmos negamos o respeito em termos humanos, num processo de auto-subestimação galopante, o que dirá do respeito em relação aos que nos rodeiam? ..... Este processo não é monopólio de determinada classe social: todos estamos sujeitos ao mesmo.”
Exatamente. Todos somos sujeitos, todos senhores, indiretamente ou diretamente foram retirados essa consciência, mais jovem que todas as outras velhas historias. Claro, é a única que já nasceu com aparato intelectual e órfã de uma velha aristocracia preconceituosa e filha de uma Europa dividida. Sendo, pois, inerente ao gênero, brasileiros novos, à aproximação inicial com aquele que julga mais próximo (ou seja, com aquele dotado de um ou mais vínculos em comum: isolamento, saudade e...), o agrupamento social que passa a ser estabelecido acaba por conceber a própria noção de vinculação de sociais, dando origem, em última análise, a identidade nacional (gérmen que nunca originou a nação brasileira em seu conceito primitivo e testado perante outras nações) e, posteriormente, até mesmo o conceito mais complexo de cidadania. Arte do projeto, dizia: Democracia e a razão . Projeta-se hoje naqueles três poderes o que quiser. Cria-se um novo mundo, todo homem é um universo, e quem o assiste enxerga exatamente o que foi e será . Sim, interpretações são infinitas, mas você enxerga exatamente aquilo que não foi e será - democracia e constituição brasileira - quem cria, só cria o que é projetado em seu espelho (esqueceram na sua memória a maioria – a população, aonde os homens iam empurrando, como até hoje)
Se considerarmos a expressão do abrasileiramento como a forma mais primitiva de associação humana e, no extremo oposto, o “estado” como sua derivação mais complexa, podemos entender o fenômeno brasileiro associativo, à luz das teorias política e jurídica, como um conjunto básico (e inicial) de desvinculações naturais, que se transmudam em desvinculações sociais, originando, num primeiro momento, as sociedades perdidas (desde as mais primitivas até as mais complexas), passando por uma falsa nação, guerras e tratados coloniais, e, a partir do estabelecimento de um território “fixo” (Uruguai e Acre) adicionado ao impacto definitivo chamado Brasil, pelo rompimento da prevalência do individual brasileiro, o homem aqui nascido e chegado, em nome do coletivo, concebendo-se um poder abstrato supremo e impiedoso denominado soberania, chegando finalmente ao chamado estado democrático, como modalidades últimas de agregação dos brasileiros.. . O que queimou, ou foi gravado num arquivo esquecido, e que é projetado das películas nacionais e estrangeiras. Apenas um fenômeno cóptico. Algo a ver com copias em óticas em movimento. Domínio democrático . Ou a projeção, sabe como é, o individualista, completamente isolado e vivendo sós, próximo aos seus semelhantes mas sem nenhuma relação com eles, não se encontra na realidade da vida. Alguém tem que pagar as contas, é esse homem distinto,trabalhador, com caráter, honrado e feliz chamado povo. Essa é nossa democracia sem brasileiros.
At né?
João

24/7/05 13:19  

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